Vídeos produzidos por Minibus Media

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segunda-feira, 28 de abril de 2008

Parabéns, criançada!

Hoje é meu aniversário. Ufa! São 30 aninhos. Mas não é bem sobre o meu aniversário que quero falar. Afinal, eu tenho família, sei o dia, o ano, o horário e até o local onde nasci. Em Moçambique, deparei-me com uma realidade bem diferente da minha. Trabalhei durante seis meses em Beira e no Dondo com um projeto com crianças órfãs cujo pelo menos um dos pais tinha HIV/Aids. Eram 120 crianças em três comunidades diferentes. A maioria delas não tinha registro de nascimento. É a essas crianças que dedico este post.

Minha missão no projeto era identificar as crianças, descobrir a data de nascimento e o nome dos pais para levar os dados à Ação Social, que faria o registro delas. O processo era sempre o mesmo. Ia à casa da criança e perguntava para um dos familiares, geralmente um dos avós, a idade da mesma. Eis que minha surpresa foi que a maioria dos familiares não se lembrava o ano de nascimento da criança. Nesses casos, o segundo passo era perguntar à própria criança a idade dela ou a idade que ela achava que tinha. Quando obtinha uma resposta, perguntava para o familiar se ele achava que a idade era aquela mesma. Em todos os casos houve concordância. Quando a criança não sabia a idade, usava outra técnica. Perguntava a idade das crianças amigas. O problema era que muitos dos amigos também não sabiam sua própria idade. Uma outra possibilidade era verificar em que série a criança estava. Mas esse se mostrou um método ineficiente. Ou a criança não estava estudando, ou na mesma classe havia crianças com até cinco anos de diferença para mais ou para menos.

Se todas as alternativas falhassem, a saída era mesmo advinhar uma idade aproximada. Depois de uma conversa com a família e com a criança, chegávamos a um consenso sobre o ano de nascimento. O próximo passo era o dia e o mês. Já que ia fazer o registro, tinha que ser completo. Era nessa etapa que eu era mais requisitada. Tanto crianças como familiares me pediam uma opinião. Dia 28 de abril na cabeça. Parabéns, criançada! No dia de hoje, mais do que o aniversário, vocês comemoram o seu direito à cidadania.

sábado, 26 de abril de 2008

Como coração de mãe...

...sempre cabe mais um.

A foto abaixo foi tirada em Moçambique, no caminho de Macuso à cidade de Quelimane, na província de Quelimane, região central do país.

Não dá pra ver, mas eu estava lá no meio, sanduichada. É que deram um lugar privilegiado pra mamma aqui. A viagem demorou quase quatro horas. Nós, eu e Shari, minha amiga húngara, que foi voluntária comigo em Moçambique, chegamos à Quelimane acabadas e famintas. Fomos comer em um restaurante/bar mas, na hora de pagar a conta, uma surpresa: não havia papel moeda em nenhum banco da cidade. Por isso, quem não tinha dinheiro trocado, não recebia troco de nenhum estabelecimento. Cheguei a pensar que era sacanagem, que o dono do restaurante estava nos enganando. Mas, com algum tempo de Moçambique, percebi que nem sempre os bancos têm papel moeda. Por duas vezes, em Beira, onde morei, não consegui sacar dinheiro porque simplesmente nenhum banco tinha dinheiro. Bom, se o banco não tem dinheiro, quem vai ter?

quinta-feira, 24 de abril de 2008

Cadê Michael Moore?


No fim da tarde de uma quinta-feira em agosto de 2006, cheguei ao escritório da ONG Omunga, em Lobito, Angola, depois de coordenar as atividades práticas do curso sobre jornalismo e vídeo-reportagem que eu e Chris, da Minibus Media, desenvolvemos por lá. Estava bem cansada. Afinal, sair com um grupo de 11 jovens às ruas para filmar entrevistas é um trabalho árduo, embora extremamente gratificante. Pois não é que volto ao Omunga e os funcionários estão bastante preocupados. M., uma das funcionárias, olha pra mim e diz: "-Mirella, a imigração está atrás de você. Vieram aqui dois homens e disseram que você tem de se apresentar no departamento de estrangeiros hoje". Bom, na hora disfarcei, mas confesso que gelei. Mas melhor ver o que está acontecendo. E lá fui eu e Chris. Subimos no táxi, como são chamadas as vans, depois cada um pegou uma mota (moto-táxi) e chegamos na imigração.
Não estou exagerando, mas todo mundo na imigração já sabia quem nós éramos e o que estávamos fazendo em Angola. Nossa chegada foi até motivo para despertar uns três funcionários que estavam com as cabeças debruçadas sobre a mesa de trabalho. Eu também teria sono lá. Afinal, ao fundo a televisão estava ligada, exibindo uma novela da Globo. As janelas fechadas, os móveis escuros, pouca iluminação. Dá sono mesmo. Nos apresentamos ao "Seu" Q.. "-Prazer, eu sou Mirella. Ele é Chris". E antes de eu falar qualquer outra coisa, "Seu" Q. olha pra mim e pergunta: "-Mas está a faltar o senhor Mixael More!". Bom, não me liguei logo de cara, mas conversa vai e conversa vem, percebi que "Seu" Q. queria falar com o documentarista Michael Moore. Quase não me aguentei. Não deu para não rir.

Essa história começou uns dez dias antes quando nós e os participantes do curso do Omunga tivemos a (brilhante) idéia de organizar a "Semana do Documentário Político", que seria realizada entre os dias 4 e 7 de setembro, a partir das 18h30, no Cine Baia, em Lobito. Durante a semana de documentários, o público em geral teria a oportunidade de assistir a filmes que foram levados por nós para Angola para servir de material de apoio ao curso que coordenamos com o Omunga. Dentre os filmes, estava o que nós havíamos produzido sobre as eleições em Moçambique e também o Fahrenheit 9/11, de Michael Moore.

Depois dos órgãos públicos terem dado todas as autorizações necessárias para o Projecto Omunga realizar a atividade, começamos a divulgar a semana em rádios locais e também com cartazes distribuídos em pontos-chave da cidade. Foi num desses cartazes que "Seu" Q. leu nosso nome e o de Michael Moore. E foi por isso que ele queria explicações.

Fim dessa parte da história: explicamos que Michael Moore é americano e que não estava em Angola. Falamos que tínhamos as autorizações necessárias para o evento. E, claro, convidamos todos os funcionários da imigração. Nenhum deles apareceu. Só a polícia. Mas isso eu deixo para o próximo post.

terça-feira, 22 de abril de 2008

Sobre gênero e democracia

A questão sobre gênero e as relações desiguais de poder entre homens e mulheres é sempre complicada. Trabalhei durante três meses na sede da Unesco, em Paris, na Secção de Mulher e Gênero. E o assunto causa polêmica e falta de entendimento mesmo entre os funcionários da organização. Os Estados membros da Unesco reafirmaram seu compromisso com a África e com gênero durante sua 34a Conferência Geral, realizada no fim do ano passado em Paris. Mas quem diz que os próprios representantes dos Estados membros que apontaram África e gênero como prioridades globais da Unesco entendem do assunto.

Mais tarde vou escrever um pouco mais sobre a experiência que tive na Unesco. Foi bom para desmitificar a imagem que eu tinha sobre a organização.

Mas, enfim, escrevi essa introduçãozinha porque hoje lembrei de dois fatos muito interessantes e que merecem a nossa reflexão. Um é o fato de duas tradutoras angolanas não terem cumprido com o acordado para o trabalho. Elas haviam sido contratadas pela Minibus Media em Angola para traduzirem um vídeo educativo sobre as eleições do português para duas línguas nacionais, o kimbundo e o umbundo. Na última hora, elas desistiram. Não estava presente, mas a leitura que faço disso é que foi uma questão de gênero. Essas mulheres se sentiram inseguras, desempoderadas perante os tradutores homens. Esse é um dos motivos que explicaria a desistência de duas mulheres com experiência em tradução que trabalham todos os dias com isso para a televisão local.

Outra explicação é a complexidade do trabalho. Não que elas não estivessem acostumadas com ele. Mas o assunto pode ter sido um fator limitador: as eleições legislativas. Para traduzir o vídeo, as tradutoras precisariam estar familiarizadas com temas - e vocabulário- relacionados com democracia. Muitos outros tradutores sentiram essa dificuldade. Eles levaram o texto para casa para estudar as melhores palavras para a tradução ao invés e traduzirem na hora, como estão acostumados a fazer.

Uma língua representa uma cultura. E essa falta de vocabulário reflete muito sobre a situação atual. Se faltam palavras para falar sobre democracia, imagine ações!

quinta-feira, 17 de abril de 2008

Guia da Comissão Africana dos Direitos dos Homens e dos Povos

Os defensores de direitos humanos e as ONG em África podem valorizar o seu trabalho de responsabilização dos governos colaborando com a Comissão Africana dos Direitos do Homem e dos Povos. A Comissão Africana é o principal órgão regional de direitos humanos em África e as suas decisões, recomendações e resoluções podem conferir autoridade ao trabalho de campanha e advocacia das ONG. A participação das ONG é vital para o sucesso dos esforços da Comissão Africana para promover e proteger os direitos humanos. Os conhecimentos e percepção das ONG fazem delas uma fonte vital de informação para a Comissão e as suas actividades no terreno colocam-nas numa posição excepcional para promover o trabalho da Comissão.
Este Guia da Comissão Africana visa ajudar as ONG em África e outros defensores dos direitos humanos a aceder à Comissão Africana para apoiar o seu trabalho.
Para ler o guia, acesse http://www.amnesty.org/ ou me envie um email. Tenho o arquivo em pdf.

quarta-feira, 16 de abril de 2008

Boa viagem, gentchi!

A primeira vez que vi Edna já notei sua personalidade forte e seu espírito de liderança. Foi no início das aulas de um curso que dei em vídeo-participativo em Luanda, em março deste ano. Durante o curso, não tive dúvidas de que a primeira impressão foi a que ficou. Afinal, Edna participou de todas as discussões, desde aquelas sobre a definição do roteiro do vídeo que seu grupo produziu até as sobre a cultura e a diversidade de Angola. E ela não é fácil, não. "Para me convencer, a pessoa precisa apresentar argumentos", ela me disse. Edna está certa. Ainda mais em um país como Angola, onde as mulheres são maioria no país, mas suas vozes ainda são minoria na tomada de decisão. E é de mulheres como Edna que nós precisamos, seja em Angola, no Brasil ou em qualquer canto do mundo. Ela é casada com Edgar, Eddy, para os íntimos, como eu (rs) e tem uma filha bem linda. Mora em Luanda.

A mais de 600 quilômetros de lá, vive Jesse, em Benguela. Também me lembro da primeira vez que o vi. Foi em agosto de 2006, no escritório da ONG angolana Omunga, em Lobito, na província de Benguela. Havíamos anunciado em rádios locais o nome das 46 pessoas (foram 301 inscritos) que haviam sido pré-selecionadas para a entrevista de seleção para o curso de jornalismo e vídeo-reportagem que eu e Chris, da Minibus Media, iríamos dar em parceria com o Omunga. Jesse era um deles. Mas naquele sábado, ele foi ao Omunga participar de uma formação que a rede eleitoral estava conduzindo por lá. E, pego de surpresa, falei: você ouviu seu nome na rádio? Ele estava meio confuso, ficou feliz, senti que queria gritar e sair correndo. Mas se controlou e aceitou fazer a entrevista de seleção naquele momento, já que poderia economizar tempo e dinheiro não tendo que voltar outro dia. Jesse foi um dos 11 selecionados para o curso e até hoje é nosso escudeiro fiel. Ele e outros colegas formaram a brigada de jornalistas do Omunga, como resultado do curso, e até hoje produzem vídeos e informação por lá. Ele também tem personalidade forte, adora discutir (comigo, principalmente, né, Jeessseee) e é um gajo bué fixe, cheio de vontade, de opinião. Também não é fácil, não, e nisso temos muito em comum!

Amanhã Jesse e Edna vão para a Suécia. Eles vão participar de um curso de edição por lá. Isso me enche de orgulho e de felicidade. É a primeira vez que eles vão à Europa. Espero que o continente lhes trate tão bem como eles nos tratam em Angola.

Aproveitem bem, aprendam muito e nos ensinem na volta, hein, gentchi!

Estou bem feliz por eles porque, acima de tudo, acredito que o desenvolvimento só é possível com a capacitação das pessoas. Essa é uma grande oportunidade para eles, para as organizações onde eles trabalham e para os suecos, que também têm muito a aprender com os angolanos.

Boa viagem! Não esqueçam de nós aqui do hemisfério sul!

segunda-feira, 14 de abril de 2008

Arte em Angola

Como eu havia prometido, aqui estão mais fotos de uma galeria de arte em Luanda. Obrigada, David, por nos ter levado até lá. Adorei conhecer mestre Kapela. Olhando as fotos, lembro de Fernando Pessoa.
"A única realidade da vida é a sensação.
A única realidade em arte é a consciência da sensação." (FP) "O Essencial da arte é exprimir; o que se exprime não interessa." (FP)

"A uma arte assim cosmopolita, assim universal, assim sintética, é evidente que nenhuma disciplina pode ser imposta, que não a de sentir tudo de todas as maneiras, de sintetizar tudo, de se esforçar por de tal modo expressar-se que dentro de uma antologia de arte sensacionista esteja tudo quanto de essencial produziram o Egipto, a Grécia, Roma, a Renascença e a nossa época. A arte, em vez de ter regras como as artes do passado, passa a ter só uma regra - ser a síntese de tudo. Que cada um de nós multiplique a sua personalidade por todas as outras personalidades." (FP)

sábado, 12 de abril de 2008

quinta-feira, 10 de abril de 2008

Será que ninguém lhe tira o sorriso da cara?

Em Angola, estimativas do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento apontam que cerca de 70% da população vive abaixo da linha da pobreza. Ou seja: a maioria dos angolanos ganha menos de um dólar por dia. No entanto, a renda per capta é de cerca de US$ 6500. Conclusão: como no Brasil, há um abismo entre os pouquíssimos ricos (muito ricos) e a maioria pobre (muito pobre).
A foto ao lado foi tirada por mim em Luanda, em março de 2008. A propaganda no topo da foto é da Unitel, companhia de celular angolana. A dona da empresa é uma das filhas do presidente angolano.

quarta-feira, 9 de abril de 2008

Vai uma carninha aí?


1 de dezembro de 2003, Dia Internacional do Combate ao HIV/Sida (Aids, pra nós brasucas) - Fui para Búse, em Moçambique, com as crianças de um orfanato mantido pela Cruz Vermelha, em Beira, onde trabalhei.
Como em toda boa festa moçambicana, não pode faltar carne nem gasosa, o nome dado aos refrigerantes. Lá não foi diferente. Cebola, à direita na foto, está lá, de olho. Gajo esperto, adora comer. Temos algo em comum!

terça-feira, 8 de abril de 2008

O primeiro vôo a gente nunca esquece!

Nunca imaginei que meu primeiro vôo de helicóptero fosse acontecer no Malauí. Pois é, foi durante a cobertura das eleições 2004. Passei um fim de semana a bordo do helicóptero abaixo, indo do sul ao centro do Malauí. Inesquecível.



Imagine a comoção que um azungu (branco, em chichewa, a língua mais falada no Malauí) não causou nas vilas por onde passamos. Olha só:


Em tempo 1: eu e Chris, da Minibus Media, cobrimos as eleições para produzir o documentário "The Making of a President".

Em tempo 2: não estávamos fazendo campanha política para o partido da situação, a UDF, que, como as fotos mostram, é amarelinha.

Em tempo 3: essa foi a única forma de acompanharmos a campanha da UDF em áreas remotas.

Em tempo 4: presenciamos a distribuição de dinheiro para os cabos eleitorais.

Em tempo 5: infelizmente não conseguimos filmar as malas porque estava super escuro, sem eletricidade. Ah, isso mesmo, o dinheiro estava em malas. Me senti em casa.


segunda-feira, 7 de abril de 2008

O dilema da apuração



Ao ler sobre a demora na divulgação do resultado das eleições presidenciais no Zimbábue, realizadas em 29 de março (sem dados até agora), logo lembro das eleições do Malauí, que cobri em maio de 2004. Malauí? What? Bom, o Malauí é um país da África Austral, com pouco mais de dez milhões de habitantes, ex-colônia inglesa. Depois da independência, em 1964, os malauianos viveram 30 anos de regime militar. Depois, mais dez anos de ditadura disfarçada de democracia. Desde 2004 tem um novo presidente. Infelizmente, não posso dar informações precisas de como está a situação agora. Parece que tem melhorado. Mas é bem difícil conseguir informações confiáveis sobre o Malauí. Está na África, não tem petróleo, diamante, porto. Ou seja: não é notícia.

Apresentação feita, Malauí - leitor, leitor - Malauí, vamos ao que interessa. Estava falando das eleições. Assunto delicado em qualquer canto do mundo, no continente africano não é diferente. Enquanto o líder da oposição zimbabuana e candidato à presidência, Morgan Tsvangirai, divulga aos quatro cantos que é o vencedor das eleições, a Comissão Eleitoral tarda a divulgar os resultados finais. Há suspeitas de fraude. Mas há provas? E se o Mugabe perder será que os observadores eleitorais vão declarar que as eleições foram livres, justas e transparentes ou não? E se ele ganhar?

No Malauí, em 2004, aconteceu exatamente a mesma coisa. Lá, como no Zimbábue, a oposição ganhou as eleições parlamentares. E a Comissão Eleitoral demorou muito para divulgar os resultados das presidenciais. Nessa demora, aprendi muito. Fiz plantão de três dias em um salão de convenção onde a contagem final dos votos estava sendo feita pela Comissão Eleitoral. Havia poucos jornalistas. Tinha um pessoal da África, um cara da China, e nós, Chris e eu, alemão e brasileira. E havia também pelo menos três consultores da ONU que foram contratados para dar apoio à Comissão Eleitoral: um australiano, uma venezuelana e um do Suriname. Eu estava enlouquecida, cobrindo uma eleição na África pela primeira vez, entendendo melhor a atuação dos observadores internacionais (havia pelo menos 300 gringos), dos partidos políticos, da sociedade civil. Foi um tempo em que eu realmente me senti jornalista, uma espectadora privilegiada da vida.

Enfim, eu e a torcida do Malauí queríamos saber o resultado das eleições. Foi quando, conversando com a venezuelana (não lembro o nome dela), tive uma grande lição: "é melhor segurar a divulgação dos resultados se a comissão não tem certeza se a contagem está certa ou não". Na verdade, havia desde erro de cálculo, até cédula extraviada e fax ilegível (pois é, os resultados de lugares distantes eram enviados por fax). Ela tinha razão. O grande problema é que a comissão não tinha preparo para lidar com isso. Imagino que seja uma situação semelhante no Zimbábue.

E tudo o que parecia correr bem no Malauí, começou a degringolar de forma abrupta. Nesse meio tempo, o líder da oposição, Gwanda Chakuamba, convocou uma coletiva de imprensa para se auto-intitular presidente eleito. Sem provas, sem números, sem nada. Só para dar aquela incentivada ao caos.

O anúncio dos resultados, em maio de 2004, foi antecipado pela Comissão Eleitoral para evitar que a Suprema Corte entrasse com recurso para suspender as eleições a pedido de alguns membros da oposição. Vitória do candidato da situação Bingu wa Mutharika. O anúncio gerou revolta em moradores da cidade de Blantyre, capital econômica do Malauí. Várias pessoas saíram às ruas para se manifestarem contra os resultados, um evento raro em um dos países mais pacíficos do continente africano. Pelo menos dez pessoas teriam sido mortas por policiais, incluindo uma criança de dez anos. A ativista de direitos humanos Emmie Chanika, da ONG local Civil Liberties Committee (Comitê das Liberdades Civis), apanhou de dois filiados do partido do governo. Ela ganhou a ação contra os agressores graças ao documentário que Chris e eu produzimos, o "The Making of a Presidente" (Presidente sob Encomenta, na tradução livre), usado como prova pela acusação.

Dias depois da vitória, no entanto, alguns candidatos da oposição se juntaram ao partido do governo. O tal Chakuamba, que disse que teria ganho as eleições, também. A imprensa local especulou que esses políticos teriam sido comprados pelo ex-presidente Muluzi, que estaria articulando a retomada da maioria do Parlamento para a situação. Os políticos alegaram que a mudança era estratégica para formar um governo de unidade nacional e garantir governabilidade. Hmmm.

Membros mais radicais da Igreja Cristã do país chegaram a dizer que essa manobra política teria sido articulada pelo ex-presidente Muluzi, que estaria governando no lugar de Mutharika. Meses depois, no entanto, Mutharika rompeu com Muluzi e se desfiliou da UDF. E outros meses depois, demitiu Chakuamba, acusado de corrupção.

Pelo pouco que sei agora, parece que o tal Mutharika está superando as expectativas que, diga-se de passagem, eram péssimas.

Agora resta saber o que vai acontecer no Zimbábue.

Para assistir ao trailer do documentário "The Making of a President", clique aqui.

sexta-feira, 4 de abril de 2008

Paz em Angola




Hoje os angolanos celebram seis anos de paz no país. Acho que nada melhor do que fotos das participantes do concurso Miss Sobrevivente de Minas, que aconteceu há dois dias, em Luanda, para ilustrar esse dia.


Para saber mais sobre o concurso e para ver mais fotos, clique aqui.

quinta-feira, 3 de abril de 2008

Viva o Barretinho!


Não podia perder a deixa que a novela das oito de ontem, Duas Caras, proporcionou. Depois do casamento de Barretinho com Sabrina (foto ao lado), o filho do advogado rico decidiu morar na Nigéria com a esposa. E, além disso, vai dar entrada ao pedido de cidadania nigeriana.

Bom, daí fiquei pensando. Nós, brasucas, somos loucos por encontrar alguém na árvore genealógica que veio da Europa para dar entrada no pedido do passaporte europeu. Eu também já cai no erro. Dei entrada no pedido de passaporte italiano há uns dez anos. É claro que não tenho o passaporte em mãos e já desisti de tentar. É uma situação ridícula ter que ficar implorando por um direito. Acho que é possível, sim, conseguir o que se quer sendo brasileira. Até hoje foi assim!
Eu tenho mesmo é curiosidade de saber quantos de nós já tentamos conseguir passaporte de algum país da África, país de origem de muitos de nossos ancestrais. Posso estar enganada, mas acho que não muitos. E também nem sei se seria possível conseguir tal passaporte porque até mesmo para angolanos e para moçambicanos, por exemplo, conseguir o bilhete de identidade é bem demorado e trabalhoso. Outro dia mesmo encontrei com uma angolana que demorou 17 meses para conseguir o bilhete de identidade. E pela nova lei, inclusive, teve de identificar a cor de sua pele no BI (bilhete de identidade). As opções em Angola são branca, preta e mista.

Eu bem que queria saber se tenho ou não algum ancestral africano. Inegável, no entanto, é o nosso jeito de se comportar bem africano. Vou fazer um comentário sobre isso no futuro. Mas voltando ao assunto anterior, confesso que achei bárbara uma matéria da BBC Brasil que foi publicada no ano passado. Foi uma análise de DNA de pessoas famosas para mapear suas origens africanas. Para ler a matéria, clique aqui.

quarta-feira, 2 de abril de 2008

Direitos das crianças em Angola

Introdução

A situação da infância nos países menos desenvolvidos é crítica, mas é na região da África subsaariana aonde esta situação toma contornos bastantes alarmantes.

Embora exista um consenso internacional acerca da importância de velar pelos direitos da criança, as acções concretas dos governos neste sentido são um tanto ou quanto escassas. Mais concretamente, esta intenção não se vê reflectida na afectação dos recursos públicos, sendo os sectores sociais os que menos recursos recebem do orçamento do Estado. Perante esta situação, a coligação Imali Ye Mwana Network1, com o financiamento da Save the Children, decidiu apoiar a investigação em matéria do orçamento público em prol da criança em Angola.

Embora o principal obstáculo à realização deste estudo tenha sido a indisponibilidade de informação, tentámos recolher tantos dados quanto possível relativamente ao período em análise (2000-2004). A estrutura do documento é a seguinte: o primeiro capítulo faz um breve resumo do contexto socioeconómico em Angola, que passa pela caracterização da população vulnerável, seguida por uma explicação da estratégia de luta contra a pobreza e a despesa social. O segundo capítulo concentrase especificamente sobre a situação da infância em Angola, com um diagnóstico da problemática da criança e uma explicação da utilização dos recursos que directamente recaem a favor da criança. Os últimos três capítulos constituem um diagnóstico sectorial das áreas da Saúde2, Educação e Assistência Social, assim como uma análise da despesa nestes sectores, com destaque para a despesa dirigida à criança.

Admitimos que a denominacao “orçamento em prol da criança” para o caso especifi co de Angola seja bastante controverso ou ate mesmo paradoxal, uma vez que os recusros dirigidos directa e indirectamente a criança estão bastantes desconcentrados e diluídos em vários sectores, programas ou funcões no orçamento. Porém a nossa abordagem esta focalizada nas bases e directrizes padronizadas para a analise de orçamentos a nível internacional.

Por último, apresentamos algumas conclusões e recomendações à luz dos progressos feitos. Esperamos que o presente documento, por um lado, venha a encetar uma reflexão por parte das autoridades públicas pertinentes e, por outro, que represente um primeiro passo para futuras investigações em prol das crianças angolanas.

Para ler o relatório completo, deixe seu email no comentário. Ainda não sei adicionar arquivos!

terça-feira, 1 de abril de 2008

Quando andar descalço vale a pena















O trecho abaixo foi escrito pelo escritor moçambicano Mia Couto, em 2005*. A foto acima foi tirada por H.-Christian Goertz em Lobito, Angola, em 2006, e a abaixo foi tira por mim, em Beira, Moçambique, em 2003. Mas a mensagem vale para todos nós, brasileiros, moçambicanos, angolanos:


"Temos que gostar de nós mesmos, temos que acreditar nas nossas capacidades. Mas esse apelo ao amor-próprio não pode ser fundado numa vaidade vazia, numa espécie de narcisismo fútil e sem fundamento. Alguns acreditam que vamos resgatar esse orgulho na visitação do passado. É verdade que é preciso sentir que temos raízes e que essas raízes nos honram. Mas a auto-estima não pode ser construída apenas de materiais do passado.

Na realidade, só existe um modo de nos valorizar: é pelo trabalho, pela obra que formos capazes de fazer. É preciso que saibamos aceitar esta condição sem complexos e sem vergonha: somos pobres. Ou melhor, fomos empobrecidos pela História. Mas nós fizemos parte dessa História, fomos também empobrecidos por nós próprios. A razão dos nossos actuais e futuros fracassos mora também dentro de nós.

Mas a força de superarmos a nossa condição histórica também reside dentro de nós. Saberemos como já soubemos antes conquistar certezas que somos produtores do nosso destino. Teremos mais e mais orgulho em sermos quem somos: moçambicanos construtores de um tempo e de um lugar onde nascemos todos os dias. É por isso que vale a pena aceitarmos descalçar não só os setes mas todos os sapatos que atrasam a nossa marcha colectiva. Porque a verdade é uma: antes vale andar descalço do que tropeçar com os sapatos dos outros."




*Trecho extraído do Vertical N° 781, 782 e 783, Março 2005