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sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Cebolinha firme e forte

Hoje liguei pra Moçambique com aquele friozinho na barriga que me dá toda vez que ligo pro orfanato.
A última vez que falei com Cebola foi no Natal. Sabia que não iria falar com ele, pois desde maio ele e todas as crianças foram reinseridas em suas famílias. E o friozinho na barriga aumenta toda vez que lembro disso. Pessoalmente, eu acho que a Cruz Vermelha, que administrava o orfanato, tomou a decisão correta. Mas o meu medo era ter notícias que não fossem boas. No final de 2004, Cebola foi passar férias na casa do tio e não havia dado certo. Passou necessidades.
Enfim, dessa vez liguei, pois queria garantir notícias antes de ir para Bissau uma vez que não sei se conseguirei ligar via skype para o telefone fixo do orfanato, já que a conexão com a internet não é boa em Bissau.
Consegui falar com d. Deolinda, diretora do orfanato. E para minha felicidade ela reclamou bem menos do que das outras vezes que eu havia falado com ela. Disse que a reinserção de algumas crianças tem sido difícil, mas não se queixou tanto como antes. Falou que Cebola está feliz com o tio e, o mais importante, está saudável. Mas minha coragem não foi além: não perguntei se ele está na escola, pois tenho medo da resposta.
Ela visita as crianças semanalmente. Não tinha um telefone de contato para que eu pudesse falar com Cebola, mas me garantiu que se eu ligar em 15 dias, irá providenciar o celular do vizinho da família dele.
Como o tempo de lá é diferente do daqui, tenho esperança que conseguirei falar com Cebola ainda este ano.
A teacher tá morreeeeeendo de saudades!

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Documentário exibido no Dockanema traz à tona debate sobre processo eleitoral

Da discussão sobre soberania à influência internacional, das pessoas pagas para serem cabos eleitorais à falta de diálogo entre os candidatos e os eleitores, “E a luta ainda continua...”, exibido pela primeira vez no país, traz um retrato geral do processo eleitoral moçambicano 2004 sob um viés jornalístico e histórico

Na semana que inaugura a campanha para as eleições gerais moçambicanas deste ano, o festival de documentário Dockanema exibe, em três sessões, o documentário “E a luta ainda continua...”. Dirigido pela jornalista brasileira Mirella Domenich e pelo repórter cinematográfico alemão H.-Christian Goertz, da produtora e consultoria em edu-comunicação Minibus Media, o documentário apresenta um retrato jornalístico da campanha eleitoral de Moçambique em 2004, com imagens e entrevistas jamais vistas no país. “A exibição do documentário em Moçambique nesse momento eleitoral crucial representa uma grande oportunidade para as pessoas debaterem o processo eleitoral tendo como exemplo o que aconteceu no passado”, diz acreditar Domenich.

A equipe da Minibus Media permaneu em Moçambique por dois meses, nos quais entrevistou os candidatos Armando Guebuza, Afonso Dhaklama e Raúl Domingos, representantes de doadores internacionais, historiadores, cabos eleitorais e eleitores. Imagens de comícios e da campanha eleitoral veiculada na televisão dão o tom do processo eleitoral. Um ponto-chave do documentário é a visita de três jovens eleitores às sedes da Frelimo, da Renamo e do PDD, na Beira, na província de Sofala.

“Procuramos mostrar como seria a recepção de eleitores comuns pelos políticos e o quanto cada partido estaria disposto a informar seus projetos para eles”, afirma Goertz. Da quase recusa à entrevista no comitê da Frelimo à guerra sob a percepção da Renamo, o documentário demonstra que aqueles jovens não aprenderam na escola a história de seu próprio país.

“Presenciamos o dia-a-dia de cabos eleitorais que ganham camisolas e capulanas para partipar da campanha sem ao menos saber as propostas dos políticos. Mas o que mais me chocou foi o fato de jovens que frequentam a escola não conhecerem a história moçambicana”, diz Domenich. “Por outro lado, também percebi que muitas perguntas feitas pelos jovens eram originais e diferentes das que eu faria. A partir daí, procuramos reestruturar o trabalho da Minibus Media, que hoje é focado em ensinar cidadãos de países em desenvolvimento técnicas de jornalismo e de vídeo para que eles próprios produzam sua informação”, completa.

Apesar de a liberdade de expressão ter sido questionada no documentário, inclusive com menção ao assassinato de Carlos Cardoso, os documentaristas dizem que não sofreram nenhum tipo de repressão em sua cobertura. “Houve muita desconfiança e burocracia para filmar monumentos e algumas cenas na rua e entrevistas, mas, de maneira geral, conseguimos coletar todas as informações necessárias”, diz Goertz.

O documentário é uma produção independente da Minibus Media, que recebeu apoio para acomodação do Hotel Polana e para transporte aéreo da LAM. A equipe contou também com o suporte do historiador moçambicano Humberto Ossemane para a pesquisa de informações.

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Para assistir a trechos e ao trailer do documentário, visite http://www.minibusmedia.org/en/projects/elections-in-mozambique (é necessário abrir com Firefox)

Para saber mais sobre o Dockanema, visite http://www.dockanema.org/pluck/?file=kop1.php

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Serviço:
Documentário: E a luta ainda continua...
Data: 17/09/09
Local: Cine Scala, Maputo
Horário: 16h

Data: 18/09/09
Local: UEM-Faculdade de Letras e Ciencias Sociais, Maputo
Horário: 14h

Data: 20/09/09
Local: CCFM-Centro Cultural Franco-Mocambicano, Maputo
Horário: 16h

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Mais informações:

Minibus Media – www.minibusmedia.org
Mirella Domenich: mirella@minibusmedia.org
H.-Christian Goertz: chris@minibusmedia.org

sábado, 9 de maio de 2009

Programação da viagem

Mami, este post é especial pra você saber onde estarei!



9/5: viagem São Paulo-Joanesburgo


10/5: chegada a Joanesburgo, visita ao Museu do Apartheid, retorno ao aeroporto, ônibus para Nelspruit. Dormir no albergue Funky Monkeys (os caras não confirmaram a reserva, mas vou ficar nesse aí até segunda opinião)


11/5: Leões e elefantes no Kruger Park


12/5: Blyde River Canyon ou Kruger Park (a definir)


13/5: ida para Swazilândia de ônibus (BazBus). Vou ficar no Swaziland Backpackers, que também não confirmou reserva!


14/5: tour cultural/House on Fire


15/5: vou tentar fazer o safári de canoa


16/5: viagem para Maputo de bumba


17/5: passar o dia em Catembe


18/5 a 22/5: Maputo, com ida para Inhaca, Matola, explorar a cena cultural moçambicana, rever Joe e Humberto e encontrar com Dinis.


23/5: viagem de Maputo a Beira de avião. Rever os meninos do orfanato. Ebaaaaaaaa! Ir com eles fazer as compras para a festinha de domingo. Rever Ejaz e Rodrigues.


24/5: Dia de Festa no orfanato. Distribuir os presentinhos que lotaram minha mala, como na foto abaixo.


25/5: Visita ao Parque Nacional da Gorongoza, sonho antigo.


26/5: PNG e volta para Beira para visitar crianças.


27/5: vôo Beira-Joanesburgo. Fazer alguma programação cultural em Joburg à noite.


28/5: vôo Joanesburgo-São Paulo




sexta-feira, 8 de maio de 2009

Turismo na África

Depois de dois anos sem férias, consegui finalmente organizar minhas férias na África. Amanhã embarco de São Paulo para a África do Sul para as férias mais esperadas da década (pelo menos para mim). É a primeira vez que vou para o continente como simplemente TURISTA. E essa sensação é mais que maravilhosa. Essa é também uma oportunidade de ressuscitar o blog, que só recebeu um post meu este ano. Vou tentar atualizá-lo periodicamente durante a viagem e, com isso, trazer as minhas percepções de turista na África (África do Sul, Suazilândia e Moçambique). Aposto que será uma visão diferente da que já tenho porque as condições de viagem são bem diferentes. Dessa vez, vou optar por um turismo que eu consideraria de luxo se comparado com as (más) condições de algumas viagens que fiz. Luxo comparativo, repito. Vou frequentar albergues e vou fazer parte da viagem por terra. Mas também vou me permitir fazer dois safáris, um na África do Sul e outro em Moçambique, e viajar de avião de Maputo para Beira, em Moçambique, percurso que já fiz de machibombo, como são chamados os ônibus em Moçambique.
Nos últimos dias tenho testado meu organismo com o foco na viagem. Operei a vesícula de emergência há pouco mais de 20 dias. A pré-condição foi a seguinte: "vou poder ir para a África, né, doutor?." E o médico, precavido, me disse: "Vai depender de sua recuperação." É claro que me recuperei mais do que bem e já testei o caimento de diversos tipos de alimentos para ter a certeza do que posso e do que não posso comer na África. Só me arrependo de uma coisa: uns três dias depois da cirurgia liguei para a cia. aérea para reservar comida especial no vôo São Paulo-Johannesburgo-São Paulo. Minha alimentação será sem gordura. Mal sabia eu que alguns dias depois já estaria nova!
Com vesícula ou sem vesícula, África - é pra lá que eu vou!

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Os primeiros passos de uma voluntária*

Já faz quase um mes que estou na Inglaterra e, para nao perder o vicio, aqui vai meu primeiro diario de bordo. Para relembrar quem ja se esqueceu, cheguei naInglaterra dia 3/3, feriadao de Carnaval. Estou participando de um programa de voluntariado. Fico seis meses aqui, mais seis em Mocambique, e depois mais dois em algum lugar. Achei que iria para aDinamarca, mas talvez vou parar em outro pais. Vivo em Winestead,uma cidade bem minuscula, com muitas fazendas, no nordeste daInglaterra. Mas meu dia aqui nao e monotono. Nem um pouco. Voces vao ver. Minha casa fica numa area bem verde. E no mesmo lugar que a escola. Vivem aqui umas 30 pessoas, oito da minha equipe, e o restante de mais duas equipes. Ou seja: passamos os dias aqui. E uma especie de Big Brother, mas, e muito legal. Por exemplo: cada pessoa tem uma ou mais areas de sua responsabilidade. Sou responsavel por festas (e claro), pela viagem de sobrevivencia que vamos fazer no fim de abril e por fundraising (arrecadacao de fundos para irmos para a Africa). Mas...... minha amiga hungara e>responsavel pela cozinha e pelo menu. Entao, fazemos nossas festinhas ilegais todas as noites e "arrecadamos" quitutes na cozinha - ela tem a chave de la.
Aqui dou aula de portugues para minha equipe todos os dias. E tambem estou estudando frances, uma vez por semana, com uma francesa. Procuro dar as aulas do jeito que >gostaria ter aprendidoingles, espanhol e, principalmente, italiano. E muito gostoso dar aulas. Outra responsabilidade que temos e cozinhar, lavar os pratos e limpar a casa. Tres vezes por semana eu cozinho ou lavo a louca para as 40 pessoas que vivem aqui. Dividimos as tarefas em tres ou quatro pessoas. Sou um desastre. So posso cozinhar massa e brigadeiro. Estouquebrando o galho assim. Outro dia, fiz ate talharine ao forno. Ficou bom, por incrivel que pareca.

Para arrecadar fundos para a viagem para a Africa, os voluntarios tem de elaborar uma revista e vende-la pelas ruas da Europa. Fiz o projeto grafico da ultima revista e editei os textos. Ficou boa. Hoje, acabei de voltar de Liverpool, onde fui vender algumas revistas. Fiz mais dinheiro do que em um mes trabalhando como jornalista. Nao sei se fiquei feliz ou triste. Liverpool e bem legal. Fui ao museu dos Beatles e a um bar no centro da cidade, onde eles tocavam. A cidade e uma daquelas que respiram musica. Ainda esta frio. Hoje devem ter feito uns 12 oC. Quem me conhece bem sabe que eu sou muito calorenta. Aqui tenho que usar no minimo tres blusas. Antes usava duas calcas, mas ja cansei de colocartanta roupa e estou me garantindo so com uma mesmo.

Nesse tempo que estou aqui so tenho uma certeza: a experiencia esta valendo a pena

Qto. a guerra (a invasão do Iraque, em 2003), estou apenas acompanhando as noticias pela internet e pela televisao. Ainda nao e dessa vez que vou a uma guerra. Ainda nao. So ainda, viu, mae! Por aqui esta tudo tranquilo. Mesmo em Liverpool nao parece que o pais esta apoiando a guerra. Ainda nao fui para Londres. Fiz a rota anti-terror Sao Paulo-Amsterda-Humberside. O cachorro da policia quase pulou em cima de mim em Amsterda mas, de resto, tudo deu certo.

Devo ir a Londres no fim do mes. Dai conto para voces como esta o clima la. Bom, por enquanto e isso.

*Email que enviei para amigos no dia 01/04/2003, contando as primeiras experiências sobre meu programa de voluntariado. Como digitei o texto em teclado inglês, não acentuei.

quinta-feira, 31 de julho de 2008

Enfim estou em Maputo!

Texto escrito em outubro de 2003 para amigos que se preparavam para ir da Inglaterra para trabalhar como voluntários em alguns países da África.

Arriving in Maputo was a shock, not because of the conditions of the city, but because of the fact that everybody speaks my language and it is pretty strange to realise that. They not only speak my language, but they are also (as I do) crazy for Brazil. They watch Brazilian soap operas, they listen Brazilian music, they love Ronaldo, and they are more than anxious to welcome a Brazilian singer that is coming to the country on November and whose program is on TV every Sunday. Ahh, they also go to the church…. a Brazilian church called Igreja Universal do Reino de Deus. It is amazing. I can tell you guys: learn the language of the country you are going because you have a great advantage. Shari is doing really well. She can communicate to the people, and I am sure that in one or 2 months she will be speaking quite well. We stayed one day in Maputo when we went to visit the city. It is not so dirty, but it is extremely poor if we take into consideration that it is the capital of the country. The streets are pavimented, but just 1/3 of the houses has clean water and sewage system. The buses are called chapas and actually they are mini buses that can fit as many people as go inside. Everybody is welcome. If you just leave the city center, you can see streets that are not pavimented and very simple houses made by palha (I don’t know the name in English) and bamboo.

terça-feira, 22 de julho de 2008

Loucos pelo Brasil - Da série não publicadas 4

A dona de casa Amélia Dinga, de 23 anos, não perde um capítulo da novela “O Clone”. Todos os dias, às 20h30, ela vai ao cinema perto de sua casa, em Beira, para assistir à novela. O cinema funciona em uma espécie de tenda, com cobertura de lona, sustentada por quatro pedaços de bambu. A televisão de 24 polegadas capta a atenção dos espectadores. O dono do cinema aluga a fita de vídeo com os capítulos de “O Clone” por dez mil meticais (cerca de R$ 1,5) e cobra mil meticais (cerca de R$ 0,15) por sessão. A novela é disputada. Sentados em bancos feitos de madeira ou mesmo no chão de terra batida, os espectadores se apertam para não perder nenhum momento.

Para Amélia, a sessão de cinema noturno e sua única diversão. Nada mais merecido para quem levanta todos os dias às 4h30 para fritar biscoitos, que vende durante o dia em um mercado de rua da cidade. Ela tem três filhos, cada um com um pai diferente. As crianças não conhecem seus respectivos pais. Todos fugiram antes dos filhos nascerem. Amélia diz que seu “coração é 100% brasileiro”. Ela sabe muito sobre o Brasil, informações todas obtidas nas novelas. Já ouviu falar de Mato Grosso, São Paulo, Rio de Janeiro. Seu sonho é visitar o Brasil. Ela só tem uma reclamação. A novela “Terra Speranza” (no Brasil “Esperança”) vai ao ar pela Televisão de Moçambique (TVM ) no mesmo horário que a sessão de cinema começa.

O vendedor José Matabele, de 20 anos, está mais interessado na vinda do cantor e apresentador Netinho de Paula para Moçambique, neste mês, do que na visita do presidente, conhecido aqui como Lula da Silva. O programa de Netinho é transmitido em Maputo pelo canal Miramar, que recebe o sinal da Record. Os programas da Globo e da Record podem ser assistidos em todo país por quem tem tv a cabo. Netinho é um dos muitos artistas brasileiros que fazem sucesso aqui. Na rádio, Sandy & Jr., Leonardo, Falamansa disputam as paradas com Roberto Carlos, Kelly Key e É o Tchan. O Bonde do Tigrão também passa por aqui.

Muitos moçambicanos já imitam o sotaque brasileiro. Influência não só das novelas, mas também dos pastores da Igreja Universal do Reino de Deus, que está espalhada por todo país. Os moçambicanos adoram Ronaldinho, Ronaldo, Rivaldo. Dizem que torceram para o Brasil na Copa de 2002. As fotos dos jogadores estão estampadas em cadernos escolares, nas camisas, nos chinelos e nas capulanas (cangas), utilizadas pelas mulheres como saia.Nos mercados, leite condensado, balas, frango e leite são brasileiros. E, apesar de o Brasil não ser considerado um dos grandes parceiros comerciais de Moçambique, a rádio anuncia pela manhã o fechamento do dia anterior da Bovespa. É nos mercados também que os moçambicanos podem comprar revistas brasileiras de meses anteriores, como IstoÉ, Caras e Exame. Se atualizam com as noticias e com as fofocas sobre os artistas que fazem novelas.

quinta-feira, 10 de julho de 2008

Da série matérias não publicadas....

A seguir, trechos de uma matéria que escrevi há cinco anos antes de uma viagem de Lula à África e antes das eleições autárquicas em Moçambique. Pois bem, escrevi a matéria que seria publicada por um jornal de circulação nacional com sede em São Paulo. Tudo certo até o dia da publicação. O editor me avisa de última hora que não teria como me pagar pela matéria, mas que o espaço estava aberto se eu quisesse publicar o texto. @#$$%^^&&, pensei. E não publiquei não apenas pelo desrespeito profissional, mas também porque acho deplorável essa mentalidade de que é um favor que o jornal faz em dar espaço para uma matéria escrita a partir de Moçambique.
Cinco anos depois, aqui está. O assunto ainda gera polêmica.


Frelimo pode se beneficiar de visita de Lula

A visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva a Moçambique às vésperas das eleições municipais que acontecem no país no dia 19 de novembro poderá beneficiar os candidatos da Frente para a Libertação de Moçambique (Frelimo), principalmente nas regiões onde o partido de oposição Resistência Nacional de Moçambique (Renamo) teve maior adesão nas eleições presidenciais anteriores. A Frelimo é o partido do presidente moçambicano, Joaquim Chissano, conhecido por sua linha ideológica de esquerda. A análise é do articulista político do jornal independente moçambicano Zambeze, Alberto Paulo Chissico.

O motivo, segundo ele, é que a vinda de Lula e de mais uma delegação de empresários poderá ser utilizada na campanha política que se iniciou na terça-feira passada em favor da Frelimo. Segundo a lei eleitoral moçambicana, somente 15 dias antes da realização da votação os candidatos podem começar a campanha eleitoral, com showmícios e a divulgação direta aos eleitores de seus planos de governo. Estima-se que mais de dois milhões de moçambicanos irão às urnas no próximo dia 19, nos 2.688 postos eleitorais espalhados pelo país. Em Moçambique, o voto não é obrigatório, e todas as pessoas com mais de 18 anos, que possuem título de eleitor podem votar.

“Os moçambicanos confundem partido político com atividade de estadista”, diz Chissico. “Por isso, não ficarei surpreso se a Frelimo usar a visita do chefe de Estado brasileiro a seu favor, instigando o povo a achar que a Frelimo, como partido político, é que é a responsável pela vinda de Lula e dos empresários, e dos conseqüentes investimentos e empregos que isso possa vir a gerar”, afirma ele, que considera a visita muito positiva para Moçambique do ponto de vista econômico. A Frelimo diz que a visita de Lula coincidiu com a proximidade das eleições, mas que não interferirá na campanha política.

Essas são as segundas eleições municipais no país. As primeiras, realizadas há cinco anos, foram boicotadas pela Renamo, maior partido de oposição, que alegou à época que a legislação para a formação dos 33 municípios do país apresentava algumas inconstitucionalidades. Sem concorrência, a Frelimo elegeu todos os prefeitos.

Dessa vez, depois de mudanças nas leis, a Renamo está disputando as eleições em 32 dos 33 municípios. Em Mocuba, município do estado Zambézia, na região central de Moçambique, o candidato da Renamo José Manteiga foi impedido de concorrer às eleições pela Comissão Nacional de Eleições (CNE) porque apresentou atestado falso de residência.

Segundo o jornalista Rodrigues Luis, do jornal independente Savana, os candidatos da Renamo teriam mais possibilidades de ganhar as eleições na região central e em alguns municípios do norte do país, onde o partido recebeu maioria dos votos nas últimas eleições presidenciais, em 1999. A imprensa local tem divulgado pesquisas eleitorais que apontam vitória da Renamo em 14 municípios do país. Se as previsões se confirmarem, será uma derrota política para a Frelimo e um forte indicativo de que, no próximo ano, quando se realizam as eleições presidenciais, o partido que sempre governou o país terá dificuldades para continuar no comando.

Oposição tem receio

A passagem de Lula por Moçambique tem motivado o ressurgimento de boatos sobre uma possível fraude nas primeiras eleições presidenciais em Moçambique, realizadas em 1994. Na ocasião, um instituto de pesquisa brasileiro foi contratado pela Frelimo para fazer as pesquisas de intenção de votos dos moçambicanos. Em todas as regiões, as pesquisas apontavam uma vitória esmagadora da Frelimo contra o candidato da Renamo, o que não se confirmou nas urnas em várias cidades.

Segundo a Renamo, o instituto de pesquisa brasileiro teria fraudado as pesquisas, o que teria ajudado a levar a eleição de Joaquim Chissano para a presidência do país. Em troca da contratação da empresa brasileira e da suposta fraude nas pesquisas, o Brasil receberia facilidades e benefícios para a exploração de alguns setores em Moçambique.

“Espero que a visita de Lula não seja uma opção política, mas econômica, de cooperação”, diz o dono de uma empresa de comércio de camarão vivo, Mario Barbito. “Se ele vem como camarada, a visita fica vazia. Que venha como presidente brasileiro. O interesse é de todos em ampliar os laços de cooperação entre os dois paises”, completa ele, que estuda a possibilidade de fechar um acordo com uma empresa brasileira na área de aquacultura.

Nas duas eleições presidenciais realizadas no país, em 1994 e em 1999, a Renamo alegou fraudes nos resultados, que deram vitória a Frelimo. Em 1999, o partido de oposição submeteu um recurso ao Tribunal Supremo na tentativa de invalidar os resultados das eleições, mas o recurso foi julgado improcedente.

Inconformada com os resultados, a Renamo liderou manifestações populares em todo o pais, que resultaram com a morte de policiais. Vários suspeitos de terem participado dos protestos foram detidos arbitrariamente, e 200 deles morreram numa cela por asfixia.

O presidente da Renamo, Afonso Dhlakama, afirma que não vai tolerar mais fraudes. Em caso de fraudes, ele diz que a Renamo irá governar mesmo que oficialmente não seja declarada como vencedora.

domingo, 15 de junho de 2008

Ele só quer é ser feliz

A maior preocupacao do menino José* no momento é o conserto da televisao do orfanato onde vive, em Nampula, Mocambique. A televisao esta quebrada ha quase um ano, mesmo periodo em que José recebe tratamento com antiretrovirais. O tempo, no entanto, nao parece uma barreira. Ele proprio se confunde ao indicar a sua idade. Suas respostas variam de cinco a dez anos. A diretora do orfanato, dona Cinira, como é conhecida, diz que José tem 12 anos, mas tem duvidas sobre a veracidade da informacao. O que é certo é que José é seropositivo desde seu nascimento.

Ha cinco anos ele vive no orfanato, que tem capacidade para 30 meninos. “As meninas orfas tem mais facilidade em conseguir moradia. Elas ajudam membros da familia com servicos domesticos, como buscar e carregar agua dos poços ate as casas, cozinhar e tomar conta de outras criancas menores. Assim acabam sendo mais aceitas que os meninos”, diz dona Cinira.

José, no entanto, sofreu a saga de tantos outros orfaos que vivem em Mocambique: rejeicao e estigma. Segundo os ultimos dados da Onusida, referentes ao ano de 2003, 470 mil criancas mocambicanas perderam pelo menos um de seus pais em decorrencia de Sida. Como José existem hoje mais de 90 mil criancas seropositivas em Mocambique. Seu tio, que é seu familiar mais proximo ainda vivo, mora ha cerca de oito quilometros do orfanato, em um dos bairros mais pobres da cidade. A casa nao tem energia eletrica nem agua corrente. Ele entregou o menino ao orfanato sob a alegacao de nao ter dinheiro para alimenta-lo. No entanto, tem duas mulheres, segundo Arnaldo, de 22 anos, que vivia no orfanato quando José foi morar la. “Ele chegou aqui muito fraco, mal conseguia andar”, conta Arnaldo, que nao sabe se tem algum membro da familia ainda vivo. Arnaldo foi deixado em um orfanato quando era muito pequeno – nao lembra a idade certa – durante a guerra civil que assolou o país por 16 anos, encerrada em 1992 com um acordo de paz entre o governo e a Renamo, hoje principal partido de oposicao mocambicano. Depois do fim da guerra, Arnaldo tentou todos os esforcos para encontrar a familia, desde anuncios na radio a divulgacao boca-a-boca. Nunca teve sucesso.

Ele é um dos poucos jovens do “centro”, como as criancas se referem ao orfanato, que sabem que José tem HIV/Sida. “José é doente, mas é uma crianca como outra qualquer. A unica diferenca é que ele precisa de alguns cuidados especiais”, diz Arnaldo, referindo-se ao tratamento com antiretrovirais.

Vitima mais do estigma que o HIV/Sida carrega do que da propria doenca em si, José luta a cada dia pela vida sem saber. Adora ir ao hospital porque é uma oportunidade de passear de carro. Esta na quarta classe e agora comecou a ter mais confianca em escrever e a ler. Estuda em uma escola a menos de cinco minutos a pe do orfanato. Por isso, é um dos primeiros a chegar para o almoco. “Hoje comi arroz e feijao. Quero muito comer carne”, diz ele, em uma tentativa de sensibilizar a reportagem para alcancar seu objetivo.
Segundo dona Cinira, ele sabe que é doente porque tem de tomar remedio diariamente, um comprimido pela manha e outro a noite. Mas a vitalidade que José carrega dentro de si faz a propria diretora se confundir. “Ele sabe que é doente, mas nao esta doente”, diz ela. “Apesar de estar em tratamento, José faz as mesmas coisas que as outras criancas do orfanato”, afirma. No ultimo ano, com o tratamento antiretroviral, José ganhou peso e altura, diz dona Cinira.

Foi no orfanato que José teve suas primeiras experiencias de integracao na sociedade. A voluntaria hungara Sarolta Banyia, de 23 anos, que trabalhou ali durante seis meses, diz que a evolucao de José é visível. “Antes ele nem conhecia a palavra ´carinho´e muito menos seu significado. Sempre se confundia com ´carrinho´”, diz ela. Agora, alem de carinhoso, José é tambem carismatico. Tem varios amigos no orfanato e na escola.

Ele tem ainda um pouco de dificuldade para andar. Uma de suas pernas parece ser maior do que a outra, o que o faz cambalear de um lado para outro quando se movimenta. A barriga grande, cheia de vermes, é motivo de orgulho para José. “Ele é pequeno mas come como ´big´”, diz seu amigo Augusto, de 11 anos. Segundo o professor de desenvolvimento da Universidade de East Anglia, em Norwich, Inglaterra, Mark Harrison, a sociedade é que torna uma pessoa deficiente. “A exclusao parte de fora para dentro e a pessoa acaba por internaliza-la. Quando o caso é o reverso, a inclusao e a consequente integracao acontecem naturalmente”, diz.

José foi ganhando seu espaco aos poucos. “Os outros meninos sabem que ele esta em tratamento, mas so os mais velhos sabem que doenca ele tem”, diz dona Cinira. José tem algumas regalias, como tomar leite e comer ovo em dia de peixe, alimento que ele nao gosta. Mas a sintonia entre as criancas supera qualquer tipo de preconceito ou ciumes. Os meninos sabem que José é um garoto especial. Nao é a toa que lhe dao prioridade para conversar com a reportagem por telefone. E ciente de seu poder de persuassao, José nao perde tempo: “precisamos de uma televisao”, diz. Afinal, ele é tao curioso pela vida como qualquer telespectador de telenovela.
*Os nomes dos entrevistados foram trocados para preservar sua identidade
**Esta matéria foi escrita por mim há um ano. Nunca foi publicada

segunda-feira, 9 de junho de 2008

Trabalho vountário II - ser ou não ser?

Segundo o dicionário Aurélio, o termo voluntário significa "que age espontaneamente, derivado de vontade própria; em que não há coação; espontâneo".

Na definição das Nações Unidas, "o voluntário é o jovem ou o adulto que, devido a seu interesse pessoal e ao seu espírito cívico, dedica parte de seu tempo, sem remuneração alguma, a diversas formas de atividades, organizadas ou não, de bem estar social ou outros campos..."

Bom, se eu usar a definição do Aurélio, 95% dos trabalhos que eu realizei na minha vida, pagos ou não, foram voluntários. Afinal, quase nunca fui forçada a fazer o que não quis, o que não acreditava.

Já, se eu usar a definição das Nações Unidas, só uns 2% dos trabalhos que já fiz na vida foram voluntários. Isso exclui meu trabalho em Moçambique. Afinal, lá eu recebia 100 dólares por mês para alimentação, transporte e lazer. Aliás, se for levar à risca a não remuneração, o que a ONU diz de seus próprios voluntários que ganham um bom salário para um trabalho que seria teoricamente sem remuneração? Nada contra alguém receber salário por seu trabalho, mas também não precisa chamar o cidadão de voluntário.

Enfim, eu acho que vale muito a pena trabalhar em países em desenvolvimento. O trabalho é necessário e gratificante. Muitas vezes, o trabalho voluntário é uma das únicas opções. E há várias dessas opções, desde ser voluntário da ONU (com salário, diga-se de passagem) a ter uma ajuda de custa bem básica ou até a pagar para ser voluntário (é só pesquisar que você irá achar várias agências de voluntariado que mais parecem agências de viagens).

Eu fui trabalhar como voluntária porque meu sonho era conhecer a África. Não a África dos safáris, mas a África desconhecida, ignorada nas aulas de história e nos jornais. Para mim, a experiência foi fantástica. Foi ótimo também viver em Moçambique com um salário baixo (mas maior do que o da maioria dos moçambicanos, que ganha menos de um dólar por dia). Os cem dólares que ganhava por mês foram, no entanto, suficientes para eu ter uma vida simples e conhecer de perto a realidade moçambicana. É bem diferente do que andar de carro, ir a bons restaurantes, não se preocupar com as contas no fim do mês. Andei de chapa (como as vans são conhecidas), comi feijão com massa (como os moçambicanos de Beira chamam a farinha de milho misturada com água), fui ao mercado central (um mercado a céu aberto que vende de tudo). Ou seja: tive a oportunidade de conhecer Moçambique de maneira que poucos estrangeiros conhecem. Isso foi essencial para eu entender a África que nunca existiu nos livros de escola.

domingo, 18 de maio de 2008

"Não se pode falar de educação sem amor"

Hoje estava revendo algumas fotos que tirei em Moçambique. Tentei falar com as crianças do orfanato, mas já passam das 17h lá e ninguém atendeu a ligação. É lembrando das crianças que reproduzo aqui a frase de Paulo Freire, com a qual concordo plenamente:

"Não se pode falar de educação sem amor"

E continuo:
"Eu sou um intelectual que não tem medo de ser amoroso, eu amo as gentes e amo o mundo. E é porque amo as pessoas e amo o mundo, que eu brigo para que a justiça social se implante antes da caridade."
É claro que não sou intelectual e nem é preciso ser para brigar pela justiça social e se indignar com qualquer forma de assistencialismo. A educação pode, sim, e deve ser transformadora.

Ficam aqui imagens e lembranças de uma educação feita e recebida com amor, uma troca de experiências, de idéias e de lutas para o desenvolvimento.



sábado, 26 de abril de 2008

Como coração de mãe...

...sempre cabe mais um.

A foto abaixo foi tirada em Moçambique, no caminho de Macuso à cidade de Quelimane, na província de Quelimane, região central do país.

Não dá pra ver, mas eu estava lá no meio, sanduichada. É que deram um lugar privilegiado pra mamma aqui. A viagem demorou quase quatro horas. Nós, eu e Shari, minha amiga húngara, que foi voluntária comigo em Moçambique, chegamos à Quelimane acabadas e famintas. Fomos comer em um restaurante/bar mas, na hora de pagar a conta, uma surpresa: não havia papel moeda em nenhum banco da cidade. Por isso, quem não tinha dinheiro trocado, não recebia troco de nenhum estabelecimento. Cheguei a pensar que era sacanagem, que o dono do restaurante estava nos enganando. Mas, com algum tempo de Moçambique, percebi que nem sempre os bancos têm papel moeda. Por duas vezes, em Beira, onde morei, não consegui sacar dinheiro porque simplesmente nenhum banco tinha dinheiro. Bom, se o banco não tem dinheiro, quem vai ter?

quarta-feira, 9 de abril de 2008

Vai uma carninha aí?


1 de dezembro de 2003, Dia Internacional do Combate ao HIV/Sida (Aids, pra nós brasucas) - Fui para Búse, em Moçambique, com as crianças de um orfanato mantido pela Cruz Vermelha, em Beira, onde trabalhei.
Como em toda boa festa moçambicana, não pode faltar carne nem gasosa, o nome dado aos refrigerantes. Lá não foi diferente. Cebola, à direita na foto, está lá, de olho. Gajo esperto, adora comer. Temos algo em comum!

terça-feira, 1 de abril de 2008

Quando andar descalço vale a pena















O trecho abaixo foi escrito pelo escritor moçambicano Mia Couto, em 2005*. A foto acima foi tirada por H.-Christian Goertz em Lobito, Angola, em 2006, e a abaixo foi tira por mim, em Beira, Moçambique, em 2003. Mas a mensagem vale para todos nós, brasileiros, moçambicanos, angolanos:


"Temos que gostar de nós mesmos, temos que acreditar nas nossas capacidades. Mas esse apelo ao amor-próprio não pode ser fundado numa vaidade vazia, numa espécie de narcisismo fútil e sem fundamento. Alguns acreditam que vamos resgatar esse orgulho na visitação do passado. É verdade que é preciso sentir que temos raízes e que essas raízes nos honram. Mas a auto-estima não pode ser construída apenas de materiais do passado.

Na realidade, só existe um modo de nos valorizar: é pelo trabalho, pela obra que formos capazes de fazer. É preciso que saibamos aceitar esta condição sem complexos e sem vergonha: somos pobres. Ou melhor, fomos empobrecidos pela História. Mas nós fizemos parte dessa História, fomos também empobrecidos por nós próprios. A razão dos nossos actuais e futuros fracassos mora também dentro de nós.

Mas a força de superarmos a nossa condição histórica também reside dentro de nós. Saberemos como já soubemos antes conquistar certezas que somos produtores do nosso destino. Teremos mais e mais orgulho em sermos quem somos: moçambicanos construtores de um tempo e de um lugar onde nascemos todos os dias. É por isso que vale a pena aceitarmos descalçar não só os setes mas todos os sapatos que atrasam a nossa marcha colectiva. Porque a verdade é uma: antes vale andar descalço do que tropeçar com os sapatos dos outros."




*Trecho extraído do Vertical N° 781, 782 e 783, Março 2005


quarta-feira, 26 de março de 2008

Saudades


Resolvi escrever este blog porque estou com saudades. No domingo passado voltei de Luanda, em Angola, para Brasília, onde moro. E agora estou com muitas saudades. Saudades das pessoas, das aventuras, do trabalho que desenvolvi por lá. Saudades de estar de volta às raízes do Brasil.

A partir de hoje, vou postar aqui lembraças que tenho da África, principalmente de Angola, de Moçambique e do Malauí, países onde vivi.

Fique à vontade para redescobrir o Brasil através da África. Foi assim que aconteceu comigo. E é assim que pode acontecer contigo.
A foto do lado foi tirada em dezembro de 2003, quando visitei a Ilha de Moçambique, primeira capital de Moçambique, pela primeira vez.