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segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Chegou a hora!

Em doze horas deixo minha casinha em São Paulo rumo a Bissau. Na verdade, a essa hora eu deveria estar terminando de colocar umas cositas na mala, mas vou dar aquele intervalinho restaurador. Nusss, que desespero olhar pras malas.
Eu ia levar uma mala grande e uma pequenininha. Mas fui colocando as coisas e o total resultou em duas malas grandes, uma com uns 30kg e outra com uns 27kg. Ainda bem que não pesam o passageiro e, por isso, não pagarei excesso de bagagem...heheh
Mas, enfim, da primeira vez que fui pra África levei uma mala de 18kg. MAS, eu era sete anos mais nova, não ia trabalhar na ONU e achava que conseguiria comprar acetona por lá.
Hoje já passei dos trinta e por cinco países africanos. Nem lembro se tentei comprar acetona, mas já tentei comprar condicionador, por exemplo, e nem sempre encontrei. Ou comprar um queijo, ou água com gás, ou um refri light.... Não é em todo lugar que se encontra toda coisa.
Então resolvi montar meu kit primeiros socorros:
- liquidificador
- panelas
- talheres
- copão pro suco verde
- toalha que seca rápido (tem pouco algodão)
- CD com curso de canto
- alguns filmes
- kit Herbalife (tks, Crica!)
- impressorinha de fotos
- livro de francês
- bola de Pilates e sua bombinha]
- dois travesseiros
- bolinha de massagem
- cremes e mais cremes
- lixeira ecológica e poética
- fotos
- até um Fom tá lá
etc...

Bom, decidi: já que posso levar duas malas de 32kg cada, vou levar e montar uma casa lá com a minha cara. E o melhor é que depois de carregar isso tudo, vou ter seguro saúde, caso precise de um ortopedista...rs

Uma coisa é certa: sei que é possível viver sem tudo isso. A maioria da população de Guiné-Bissau provavelmente não terá na vida inteira o que eu estou levando nessas duas malas. Isso é cruel demais. Mas, de coração, espero que o que de mais valioso que estou levando, seja realmente transformador - que é a vontade de fazer acontecer e de que meu trabalho gere mesmo resultados que afetem positivamente a vida das pessoas.

Até Bisau!

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Na Unesco

Há um ano eu estava chegando em Paris, França, para fazer um estágio na Seção de Mulher e Eqüidade de Gênero da Unesco. Lembro da dor de barriga que senti no aeroporto de Guarulhos, em São Paulo, antes do avião partir. A escolha não havia sido fácil. Não sabia se tinha tomado a decisão certa ou não.
Depois de passar um bom tempo fora do Brasil, havia voltado há três meses a viver em São Paulo. Trabalhava há 40 dias em uma ONG, com carteira assinada e tudo, como diria minha mãe. Mas quando surgiu a proposta da Unesco balancei. Havia me inscrito para a vaga em abril de 2007 e nem me lembrava mais, para falar a verdade. Foi quando recebi a notícia via email. Depois fui entrevistada e aceita para a vaga.
Para tornar uma longa história curta, em dois dias tive que tomar a decisão. Pedi demissão, comprei minha passagem, liguei para duas amigas que vivem em Paris e fui. Detalhe: a decisão foi difícil porque, dentre outras cositas, o estágio não era remunerado. Enfim, paguei para ver.
Eu queria muito conhecer uma organização da ONU por dentro, saber como as decisões são tomadas, como é a relação dos Estados membros, qual é o perfil do cara que fica lá no escritório. A oportunidade não poderia ter sido melhor: participei da 34a Conferência Geral da Unesco, evento no qual são tomadas as decisões para as ações e para o orçamento da organização nos próximos dois anos da organização. E não poderia ter sido melhor mesmo: as prioridades da Unesco para o biênio 2008-2009 são África e gênero.
Agora não tenho tempo de escrever sobre a experiência aqui. Mas o farei assim que possível. Só tenho uma coisa a dizer: foi uma das decisões mais acertadas da minha vida. Eu me decepcionei, sim - e muito. Mas valeu muito a pena.
Abaixo, algumas fotos:










segunda-feira, 9 de junho de 2008

Trabalho vountário II - ser ou não ser?

Segundo o dicionário Aurélio, o termo voluntário significa "que age espontaneamente, derivado de vontade própria; em que não há coação; espontâneo".

Na definição das Nações Unidas, "o voluntário é o jovem ou o adulto que, devido a seu interesse pessoal e ao seu espírito cívico, dedica parte de seu tempo, sem remuneração alguma, a diversas formas de atividades, organizadas ou não, de bem estar social ou outros campos..."

Bom, se eu usar a definição do Aurélio, 95% dos trabalhos que eu realizei na minha vida, pagos ou não, foram voluntários. Afinal, quase nunca fui forçada a fazer o que não quis, o que não acreditava.

Já, se eu usar a definição das Nações Unidas, só uns 2% dos trabalhos que já fiz na vida foram voluntários. Isso exclui meu trabalho em Moçambique. Afinal, lá eu recebia 100 dólares por mês para alimentação, transporte e lazer. Aliás, se for levar à risca a não remuneração, o que a ONU diz de seus próprios voluntários que ganham um bom salário para um trabalho que seria teoricamente sem remuneração? Nada contra alguém receber salário por seu trabalho, mas também não precisa chamar o cidadão de voluntário.

Enfim, eu acho que vale muito a pena trabalhar em países em desenvolvimento. O trabalho é necessário e gratificante. Muitas vezes, o trabalho voluntário é uma das únicas opções. E há várias dessas opções, desde ser voluntário da ONU (com salário, diga-se de passagem) a ter uma ajuda de custa bem básica ou até a pagar para ser voluntário (é só pesquisar que você irá achar várias agências de voluntariado que mais parecem agências de viagens).

Eu fui trabalhar como voluntária porque meu sonho era conhecer a África. Não a África dos safáris, mas a África desconhecida, ignorada nas aulas de história e nos jornais. Para mim, a experiência foi fantástica. Foi ótimo também viver em Moçambique com um salário baixo (mas maior do que o da maioria dos moçambicanos, que ganha menos de um dólar por dia). Os cem dólares que ganhava por mês foram, no entanto, suficientes para eu ter uma vida simples e conhecer de perto a realidade moçambicana. É bem diferente do que andar de carro, ir a bons restaurantes, não se preocupar com as contas no fim do mês. Andei de chapa (como as vans são conhecidas), comi feijão com massa (como os moçambicanos de Beira chamam a farinha de milho misturada com água), fui ao mercado central (um mercado a céu aberto que vende de tudo). Ou seja: tive a oportunidade de conhecer Moçambique de maneira que poucos estrangeiros conhecem. Isso foi essencial para eu entender a África que nunca existiu nos livros de escola.