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quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Na Unesco

Há um ano eu estava chegando em Paris, França, para fazer um estágio na Seção de Mulher e Eqüidade de Gênero da Unesco. Lembro da dor de barriga que senti no aeroporto de Guarulhos, em São Paulo, antes do avião partir. A escolha não havia sido fácil. Não sabia se tinha tomado a decisão certa ou não.
Depois de passar um bom tempo fora do Brasil, havia voltado há três meses a viver em São Paulo. Trabalhava há 40 dias em uma ONG, com carteira assinada e tudo, como diria minha mãe. Mas quando surgiu a proposta da Unesco balancei. Havia me inscrito para a vaga em abril de 2007 e nem me lembrava mais, para falar a verdade. Foi quando recebi a notícia via email. Depois fui entrevistada e aceita para a vaga.
Para tornar uma longa história curta, em dois dias tive que tomar a decisão. Pedi demissão, comprei minha passagem, liguei para duas amigas que vivem em Paris e fui. Detalhe: a decisão foi difícil porque, dentre outras cositas, o estágio não era remunerado. Enfim, paguei para ver.
Eu queria muito conhecer uma organização da ONU por dentro, saber como as decisões são tomadas, como é a relação dos Estados membros, qual é o perfil do cara que fica lá no escritório. A oportunidade não poderia ter sido melhor: participei da 34a Conferência Geral da Unesco, evento no qual são tomadas as decisões para as ações e para o orçamento da organização nos próximos dois anos da organização. E não poderia ter sido melhor mesmo: as prioridades da Unesco para o biênio 2008-2009 são África e gênero.
Agora não tenho tempo de escrever sobre a experiência aqui. Mas o farei assim que possível. Só tenho uma coisa a dizer: foi uma das decisões mais acertadas da minha vida. Eu me decepcionei, sim - e muito. Mas valeu muito a pena.
Abaixo, algumas fotos:










terça-feira, 22 de abril de 2008

Sobre gênero e democracia

A questão sobre gênero e as relações desiguais de poder entre homens e mulheres é sempre complicada. Trabalhei durante três meses na sede da Unesco, em Paris, na Secção de Mulher e Gênero. E o assunto causa polêmica e falta de entendimento mesmo entre os funcionários da organização. Os Estados membros da Unesco reafirmaram seu compromisso com a África e com gênero durante sua 34a Conferência Geral, realizada no fim do ano passado em Paris. Mas quem diz que os próprios representantes dos Estados membros que apontaram África e gênero como prioridades globais da Unesco entendem do assunto.

Mais tarde vou escrever um pouco mais sobre a experiência que tive na Unesco. Foi bom para desmitificar a imagem que eu tinha sobre a organização.

Mas, enfim, escrevi essa introduçãozinha porque hoje lembrei de dois fatos muito interessantes e que merecem a nossa reflexão. Um é o fato de duas tradutoras angolanas não terem cumprido com o acordado para o trabalho. Elas haviam sido contratadas pela Minibus Media em Angola para traduzirem um vídeo educativo sobre as eleições do português para duas línguas nacionais, o kimbundo e o umbundo. Na última hora, elas desistiram. Não estava presente, mas a leitura que faço disso é que foi uma questão de gênero. Essas mulheres se sentiram inseguras, desempoderadas perante os tradutores homens. Esse é um dos motivos que explicaria a desistência de duas mulheres com experiência em tradução que trabalham todos os dias com isso para a televisão local.

Outra explicação é a complexidade do trabalho. Não que elas não estivessem acostumadas com ele. Mas o assunto pode ter sido um fator limitador: as eleições legislativas. Para traduzir o vídeo, as tradutoras precisariam estar familiarizadas com temas - e vocabulário- relacionados com democracia. Muitos outros tradutores sentiram essa dificuldade. Eles levaram o texto para casa para estudar as melhores palavras para a tradução ao invés e traduzirem na hora, como estão acostumados a fazer.

Uma língua representa uma cultura. E essa falta de vocabulário reflete muito sobre a situação atual. Se faltam palavras para falar sobre democracia, imagine ações!