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sábado, 25 de setembro de 2010

Cuidado, cuidado, cuidado











As coisas que eu mais ouvi quando contei para as pessoas no Brasil que viria para Guiné-Bissau foram:

- Cuidado!
- Você está louca.

Sim, todo mundo pediu para eu tomar cuidado. Acho que é natural, isso aconteceu quando eu fui para os EUA ou para a Europa. Mas a preocupação perante à África é sempre maior. É a preocupação com o desconhecido - essa gente não deve ter lido Minha Vida na África...rs. Afinal, nós, brasileiros, pouco conhecemos a África, apesar de nossa história ter se cruzado em vários momentos.

Geralmente eu sempre digo: cuidado eu tenho que ter para andar em São Paulo! E isso é uma grande verdade. No sábado passado fiz minha primeira caminhada pelas ruas de Bissau, sozinha, botinha de bióloga para driblar os obstáculos das ruas, olhares atentos. A sensação foi maravilhosa. Munida de minha maquininha fotográfica fiz algumas fotos. Ninguém me perturbou. Ninguém reclamou. Ninguém tentou me roubar. Tive uma sensação de liberdade grande, só possível quando eu sinto segurança. E estava eu em Bissau, muito mais segura do que em São Paulo.

Não. Não sou louca. Isso é fato!

Aqui seguem algumas primeiras imagens que fiz.

Obs.: Piadinha que corre na boca pequena: Bissau é a capital mais tranquila da África, o único problema é que tem golpe de estado duas vezes aos ano!

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

A chegada em Bissau

- Mirella, Mirella....
Essas foram as primeiras palavras que ouvi quando cheguei em Bissau. Depois de 36 horas desde São Paulo, via Lisboa, estava eu de volta ao continente africano, em um país que nunca antes estivera.
Quando o piloto anuncia que o pouso estava autorizado, veio aquele arrepio. Não era medo, era emoção. Frio na barriga eu senti quando minha irmã atendeu o interfone lá em São Paulo, e me avisou que o táxi já estava lá embaixo. Mas agora era diferente. Já estava prestes a aterrar, como dizem por cá. Olhei pra baixo e nada vi. Claro, não há sistema de distribuição de energia elétrica a funcionar no país. Apenas senti quando o avião tocou o solo e daí vi algumas luzes na pista. Ufa! Não havia caído, era terra firme. Na hora me lembrei em situação semelhante vivida em Kinshasa, capital da República Democrática do Congo, quando o avião aterrou e saiu aquele balãozinho da minha cabeça: será que caiu?
Desci as escadas do avião com um sorriso que cruzava as orelhas e cujas pontas se encontravam lá na nuca. Confesso que tive vontade de beijar o chão. Mas não sou o papa, infelizmente! O pé direito foi o primeiro a pisar no solo de Bissau. Claaaaro, tinha que manter a tradição que descobri ser uma superstição. Depois entrei no ônibus, mais conhecido como autocarro, para ir até o galpão do aeroporto.
Lá chego e vejo várias pessoas esperando outras pessoas, antes da imigração. Achei estranho. Pensei “ferrou”. E continuei a caminhar. Ninguém me abordou, nem tentou “me ajudar” carregando a bagagem de mão, nem nada. Sensação ótima, mas estranha para quem já posou em outros aeroportos africanos e, diga-se de passagem, europeus.
Logo recebi um papel de imigração para preencher com meus dados. Escrevi e ouvi uma voz de longe a gritar: - Mirella, Mirella...
Pensei: não acredito que encontrei algum conhecido aqui. Mas não era um conhecido. Quem gritava era Cláudio*, motorista que fora me apanhar. Cláudio gritava aleatoriamente, na certeza de que eu o escutaria. Ele não tinha idéia de quem eu era. Na verdade, àquela altura, depois das já ditas 36 horas de viagem, eu me sentia meio estragada, com prazo de validade vencido. Carregava comigo o Fom (uma almofada super aconchegante feita de um material que se chama fom – ou a marca é fom?), com uma fronha azul celeste. Saí do avião abraçada ao meu fom companheiro, responsável por eu estar mexendo meu pescoço hoje. Se não fossem os cabelos brancos, eu me daria uns 15 anos. Devia estar parecendo uma adolescente depois de uma noite mal dormida, cujo pai a havia acordado cedo para o acompanhar na feira. Enfim, olhei através da cabine do oficial de imigração. Cabine feita em madeira escura até a altura da cintura, e depois de vidro, para que tanto imigrante quanto oficial possam se olhar. Acenei para Cláudio, que logo veio em minha direção dizendo: - “Ela está comigo, pode deixar passar”. O oficial olhou pra minha cara, carimbou meu passaporte, destacou o cartão de imigração e me devolveu uma das partes. Atrás dessa parte, os dizeres: “Guiné-Bissau, terra da biodiversidade”. Pensei: é destino mesmo. E cá estou.
Cláudio me deu boas vindas, me ajudou a pegar as malas, me indicou a saída para diplomatas e, enfim, cheguei em Bissau. Eram 2h30 da manhã. Não havia luz nas ruas, mas tinha uma sensação de segurança imensa. No caminho do aeroporto até minha acomodação, Cláudio falou coisas supersimpáticas e animadoras. Agradeceu por minha vinda, me desejou “boa vida” aqui. Enfim, foi um gentleman.
Por incrível que pareça, me senti no primeiríssimo mundo, pois Primeiro Mundo pra mim implica respeito entre as pessoas. A aparente cordialidade do povo da Guiné-Bissau contagia, agrada, motiva.
Ya, estamos juntos!


Em tempo: Na conexãozinha de 15 horas em Lisboa, comprei uma maquinha de filmar em uma loja chamada Worten. Quando fui para o hotel tentar dormir na horizontal, liguei a TV por curiosidade. A propaganda dizia algo como "Worten e os portugueses felizes para sempre". E complementava: "Worten sempre!"

terça-feira, 24 de agosto de 2010

United Nations Volunteer position in Guiné-Bissau

UNV Communications and Advocacy open position in Guinea-Bissau

http://www.unv.org/en/how-to-volunteer/special-recruitment/doc/unv-communications-and-advocacy.html

or www.unv.org

Application can be done only through UNV site: see TORs and instructions in the above mentioned link.

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Vida de voluntária - mais um diário de bordo

Escrevi o email abaixo em junho de 2003, quando ainda estava na Europa, me preparando para ser voluntária em Moçambique. É mais um capítulo da vidinha de voluntária.

Oi, pessoal, tudo bem? Ja se foram tres meses,e e por isso que meu terceiro diario de bordo esta aqui, fresquinho para cada um de voces. Estou em Copenhague, na Dinamarca, onde vou morar por um mes. Estou dando aulas para refugiados do Iraque, da Somalia e do Ira. Esta sendo uma experiencia muito boa e, o melhor,ainda ganho pra isso. So que o dinheiro vai todo para a minha viagem para a Africa. Fazer o que, ne? Volto para a Inglaterra no fim de junho. Vim para ca para participar de um campeonato de teatro eresolvi ficar (Para quem nao lembra, sou tambem atriz agora). A peca foi Lysistrata, de Aristofanes. Conta a historia de algumas mulheres gregas que decidiram fazer greve de sexo para que seus maridos deixassem de participar da guerra. E uma comedi a muito engracada.Meu personagem era Ismenia, uma mulher que tentou fugir da Acropoles,local onde a ala feminina se reuniu durante a greve, fingindo que estava gravida. A peca estava muito boa. Ficamos em terceiro lugar.

A Dinamarca e muito bonita - e limpa, acima de tudo. Quando cheguei,fiquei em Juesmilde. E uma cidadezinha tao limpa que passou pela minha cabeca a necessidade de ter de tirar o sapato para pisar na rua. Mas agora ja estou mais acostumada. Aqui quase todo mundo fala ingles e tem uma bicicleta. Tentei dar uma volta por Copenhague em uma bike gratis que os turistas podem utilizar, mas nao deu: minhas pernas sao muito curtas para as bicicletas de gigantes que eles tem aqui. Culpa dos baixinhos la de casa. Nesse ultimo mes, muita coisa aconteceu. Fui para Londres, fiz o teatro, li alguns livros sobre Mocambique, trabalhei para o British Council. Londres, alias, e uma cidade maravilhosa. Cidade grande, cheia de historia, onde e possivel encontrar gente de todo o mundo. Como era de se esperar, o clima de guerra era inexistente. A cidade e tranquila, ainda mais se comparar com quem esta acostumado a Sao Paulo. Os guardas nao andam nem com arma de fogo. No fim de junho e comeco de agosto vou tirar ferias. Dai vou aproveitar para dar uma passeada pela Italia,Espanha, Portugal, Franca e Belgica. Ja sei que voces devem estar seperguntando como, onde, porque etc. Aqui na ONG todo mundo tem direito a ferias de sete dias. Mas, sou brasuca, e consegui dar uma prolongada. Vou num esquema bem barato se comparado com o padrao continental: aviao com desconto, onibus, trem. Durmo em albergues e entro nas atracoes na faixa com a apresentacao da carteira dejornalista. >Minha vida deve estar parecendo uma maravilha. Mas nao e nao. Ja tive alguns choques culturais como ter de pagar para ir ao banheiro dentro de um shopping center em Liverpool, nao ver mendingona rua na Dinamarca, e ter de acordar as 6h da manha para dar aula.Mas esses sacrificios compensam. Sempre tenho saudades das farras noBrasil, da carne, do clima. O tempo em Copenhague na semana passada estava excelente. Deu ate para lembrar do Nordeste. Um calorao de 18a 20oC e sol. Peguei uma praia. Estou super bronzeada.

Tenho de ir agora. Escrevam contando as novidades. Leio todos os e-mails. Quando voces vem me visitar?

Beijao, Mirella

domingo, 24 de agosto de 2008

A chegada em Maputo - trabalho voluntário II

A chegada em Maputo foi um choque, nao por causa das condicoes da cidade, mas porque todo mundo fala portugues e é muito estranho estar na Africa, tao distante, tao desconhecida, e escutar as pessoas falando a mesma lingua. Os mocambicanos nao apenas falam portugues, mas eles sao loucos pelo Brasil. Eles assistem a novelas brasileiras, escutam musica brasileira, amam Ronaldo, e estao mais do que ansiosos para recepcionarem o cantor Netinho de Paula - e seu um dia de princesa -que tem uma visita prevista a Mocambique em novembro. Seu programa e transmitido aqui aos domingos. Ahhh, eles tambem vao a igreja. E claro, vao a Igreja Universal do Reino de Deus.

Maputo e a capital de Mocambique, com pouco mais de tres milhoes de habitantes. O centro da cidade e bastante limpo se comparado com o padrao nacional. A arquitetura e colonial portuguesa, como em muitas cidades do Brasil. A pobreza, entretanto, da um soco na cara de quem la chega. Ruas pavimentadas so na regiao central. As construcoes portuguesas tambem. A poucos minutos do centro, ruas de terra, casas bem simples feitas de palha e bambu, uma grande favela, mas nao tao aglomerada como as do Brasil. A populacao e carente. Falta tudo.As pessoas vestem-se com roupas bem velhas, surradas, furadas, sujas. So 1/3 das casas em Maputo tem agua tratada e encanada e sistema de esgoto. As criancas brincam na rua enquanto as maes trabalham vendendo frutas, peixe ou biscoitos que fazem em casa. Falta aos mocambicanos informacao sobre higiene e cuidados com a saude. O lixo e jogado na rua, as criancas brincam com ele, e as galinhas se alimentam dele. Depois sao vendidas no mercado e vao de la para a mesa.

Fiquei apenas um dia em Maputo, mas consegui dar uma volta pela cidade, ver alguns murais de arte, ir ao hospital. Enfim,sentir a cidade. Outro fator interessante sao os nomes dados as ruas,muitas deles com alusao a luta pela independencia de Mocambique, em1975, como prca. Da Forca Popular, e outras com referencia a pensadores de esquerda, como av. Karl Marx. Depois da independencia de Mocambique, em 1975, o pais viveu uma guerra civil ate 1992,quando foi assinado um contrato de paz, que vigora ate hoje. A guerra envolveu basicamente duas guerrilhas, que depois viraram partidos politicos: a Frelimo (Frente pela a Libertacao de Mocambique) e aRenamo (Resistencia Nacional de MOcambique). A Frelimo, que governa o pais hoje, tem uma linha ideologica mais voltada para a esquerda. Na guerra civil, inclusive, foi apoiada por Cuba e pela ex-URSS. ARenamo e de direita, teve o apoio da Africa do Sul e dos EUA durantea guerra. (continuação)

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Os primeiros passos de uma voluntária*

Já faz quase um mes que estou na Inglaterra e, para nao perder o vicio, aqui vai meu primeiro diario de bordo. Para relembrar quem ja se esqueceu, cheguei naInglaterra dia 3/3, feriadao de Carnaval. Estou participando de um programa de voluntariado. Fico seis meses aqui, mais seis em Mocambique, e depois mais dois em algum lugar. Achei que iria para aDinamarca, mas talvez vou parar em outro pais. Vivo em Winestead,uma cidade bem minuscula, com muitas fazendas, no nordeste daInglaterra. Mas meu dia aqui nao e monotono. Nem um pouco. Voces vao ver. Minha casa fica numa area bem verde. E no mesmo lugar que a escola. Vivem aqui umas 30 pessoas, oito da minha equipe, e o restante de mais duas equipes. Ou seja: passamos os dias aqui. E uma especie de Big Brother, mas, e muito legal. Por exemplo: cada pessoa tem uma ou mais areas de sua responsabilidade. Sou responsavel por festas (e claro), pela viagem de sobrevivencia que vamos fazer no fim de abril e por fundraising (arrecadacao de fundos para irmos para a Africa). Mas...... minha amiga hungara e>responsavel pela cozinha e pelo menu. Entao, fazemos nossas festinhas ilegais todas as noites e "arrecadamos" quitutes na cozinha - ela tem a chave de la.
Aqui dou aula de portugues para minha equipe todos os dias. E tambem estou estudando frances, uma vez por semana, com uma francesa. Procuro dar as aulas do jeito que >gostaria ter aprendidoingles, espanhol e, principalmente, italiano. E muito gostoso dar aulas. Outra responsabilidade que temos e cozinhar, lavar os pratos e limpar a casa. Tres vezes por semana eu cozinho ou lavo a louca para as 40 pessoas que vivem aqui. Dividimos as tarefas em tres ou quatro pessoas. Sou um desastre. So posso cozinhar massa e brigadeiro. Estouquebrando o galho assim. Outro dia, fiz ate talharine ao forno. Ficou bom, por incrivel que pareca.

Para arrecadar fundos para a viagem para a Africa, os voluntarios tem de elaborar uma revista e vende-la pelas ruas da Europa. Fiz o projeto grafico da ultima revista e editei os textos. Ficou boa. Hoje, acabei de voltar de Liverpool, onde fui vender algumas revistas. Fiz mais dinheiro do que em um mes trabalhando como jornalista. Nao sei se fiquei feliz ou triste. Liverpool e bem legal. Fui ao museu dos Beatles e a um bar no centro da cidade, onde eles tocavam. A cidade e uma daquelas que respiram musica. Ainda esta frio. Hoje devem ter feito uns 12 oC. Quem me conhece bem sabe que eu sou muito calorenta. Aqui tenho que usar no minimo tres blusas. Antes usava duas calcas, mas ja cansei de colocartanta roupa e estou me garantindo so com uma mesmo.

Nesse tempo que estou aqui so tenho uma certeza: a experiencia esta valendo a pena

Qto. a guerra (a invasão do Iraque, em 2003), estou apenas acompanhando as noticias pela internet e pela televisao. Ainda nao e dessa vez que vou a uma guerra. Ainda nao. So ainda, viu, mae! Por aqui esta tudo tranquilo. Mesmo em Liverpool nao parece que o pais esta apoiando a guerra. Ainda nao fui para Londres. Fiz a rota anti-terror Sao Paulo-Amsterda-Humberside. O cachorro da policia quase pulou em cima de mim em Amsterda mas, de resto, tudo deu certo.

Devo ir a Londres no fim do mes. Dai conto para voces como esta o clima la. Bom, por enquanto e isso.

*Email que enviei para amigos no dia 01/04/2003, contando as primeiras experiências sobre meu programa de voluntariado. Como digitei o texto em teclado inglês, não acentuei.

quinta-feira, 31 de julho de 2008

Enfim estou em Maputo!

Texto escrito em outubro de 2003 para amigos que se preparavam para ir da Inglaterra para trabalhar como voluntários em alguns países da África.

Arriving in Maputo was a shock, not because of the conditions of the city, but because of the fact that everybody speaks my language and it is pretty strange to realise that. They not only speak my language, but they are also (as I do) crazy for Brazil. They watch Brazilian soap operas, they listen Brazilian music, they love Ronaldo, and they are more than anxious to welcome a Brazilian singer that is coming to the country on November and whose program is on TV every Sunday. Ahh, they also go to the church…. a Brazilian church called Igreja Universal do Reino de Deus. It is amazing. I can tell you guys: learn the language of the country you are going because you have a great advantage. Shari is doing really well. She can communicate to the people, and I am sure that in one or 2 months she will be speaking quite well. We stayed one day in Maputo when we went to visit the city. It is not so dirty, but it is extremely poor if we take into consideration that it is the capital of the country. The streets are pavimented, but just 1/3 of the houses has clean water and sewage system. The buses are called chapas and actually they are mini buses that can fit as many people as go inside. Everybody is welcome. If you just leave the city center, you can see streets that are not pavimented and very simple houses made by palha (I don’t know the name in English) and bamboo.

segunda-feira, 9 de junho de 2008

Trabalho vountário II - ser ou não ser?

Segundo o dicionário Aurélio, o termo voluntário significa "que age espontaneamente, derivado de vontade própria; em que não há coação; espontâneo".

Na definição das Nações Unidas, "o voluntário é o jovem ou o adulto que, devido a seu interesse pessoal e ao seu espírito cívico, dedica parte de seu tempo, sem remuneração alguma, a diversas formas de atividades, organizadas ou não, de bem estar social ou outros campos..."

Bom, se eu usar a definição do Aurélio, 95% dos trabalhos que eu realizei na minha vida, pagos ou não, foram voluntários. Afinal, quase nunca fui forçada a fazer o que não quis, o que não acreditava.

Já, se eu usar a definição das Nações Unidas, só uns 2% dos trabalhos que já fiz na vida foram voluntários. Isso exclui meu trabalho em Moçambique. Afinal, lá eu recebia 100 dólares por mês para alimentação, transporte e lazer. Aliás, se for levar à risca a não remuneração, o que a ONU diz de seus próprios voluntários que ganham um bom salário para um trabalho que seria teoricamente sem remuneração? Nada contra alguém receber salário por seu trabalho, mas também não precisa chamar o cidadão de voluntário.

Enfim, eu acho que vale muito a pena trabalhar em países em desenvolvimento. O trabalho é necessário e gratificante. Muitas vezes, o trabalho voluntário é uma das únicas opções. E há várias dessas opções, desde ser voluntário da ONU (com salário, diga-se de passagem) a ter uma ajuda de custa bem básica ou até a pagar para ser voluntário (é só pesquisar que você irá achar várias agências de voluntariado que mais parecem agências de viagens).

Eu fui trabalhar como voluntária porque meu sonho era conhecer a África. Não a África dos safáris, mas a África desconhecida, ignorada nas aulas de história e nos jornais. Para mim, a experiência foi fantástica. Foi ótimo também viver em Moçambique com um salário baixo (mas maior do que o da maioria dos moçambicanos, que ganha menos de um dólar por dia). Os cem dólares que ganhava por mês foram, no entanto, suficientes para eu ter uma vida simples e conhecer de perto a realidade moçambicana. É bem diferente do que andar de carro, ir a bons restaurantes, não se preocupar com as contas no fim do mês. Andei de chapa (como as vans são conhecidas), comi feijão com massa (como os moçambicanos de Beira chamam a farinha de milho misturada com água), fui ao mercado central (um mercado a céu aberto que vende de tudo). Ou seja: tive a oportunidade de conhecer Moçambique de maneira que poucos estrangeiros conhecem. Isso foi essencial para eu entender a África que nunca existiu nos livros de escola.

terça-feira, 20 de maio de 2008

Vida de voluntário I

Uma amiga me enviou um email há uns três dias me perguntando sobre como cheguei à África para fazer trabalho voluntário. Só para esclarecer para quem não sabe, fui à África pela primeira vez, mais precisamente para Moçambique, em 2003. Lá trabalhei como voluntária. Dei aulas de inglês e de cidadania em uma escola pública, coordenei um projeto de inserção social para crianças órfãs cujo pelo menos um dos pais morreu em decorrência de HIV/Sida e fui uma espécie de professora, amiga, monitora em um orfanato. Vivi sempre em Beira. Trabalhei lá e também em Dondo.

A pergunta dessa amiga também foi minha pergunta durante anos antes de eu finalmente realizar meu sonho. Como recebo com frequência emails e recados no orkut sobre esse assunto, vou tentar deixar posts neste blog que possam ajudar quem tiver interesse em trabalho voluntário na África.

Abaixo estão os emails que troquei com essa amiga:

"Oi Mi, tudo bem?

Te escrevo porque queria uma dica sua. Vc já ouviu falar de uma organização chamada CCTG - Campus Califórnia TG?

Eles ficam em Etna, extremo norte da Califórnia, e desde 2000 formam voluntários no programa de formação de Instrutores de Desenvolvimento. Após a realização deste curso, que dura 6 meses, os voluntários são enviados para a África para participar de programas ligados à educação e ao controle do HIV, bem como para prestar assistência a crianças em situação de risco. O site deles é
http://www.cctg.org/.

Queria saber se os caras são sérios/confiáveis..."



Minha resposta:
"Já ouvi falar, sim, deles. Aliás, foi com eles que fui voluntária na África, mas meu treinamento foi na Inglaterra.Olha, eu não me arrependo de ter ido, realizei o sonho da minha vida, mas te digo que penei muito com eles. Primeiro porque quase nada do que foi combinado foi cumprido no treinamento na Inglaterra. O "treinamento" é mais um fundraising. Não há pessoas capacitadas para treinarem ninguém. Eu aproveitei o tempo e estudei bastante por minha conta. Por isso que foi proveitoso pra mim. Acho que depende de cada pessoa.É também uma super experiência ter vivido nos confins da Inglaterra, com 40 pessoas, e fazendo todas as tarefas que tive que fazer: ex. cozinhar para essas 40 pessoas. Foi um esquema meio exército, foi difícil, mas aprendi muito.
Na África, aproveitei bastante e desenvolvi um trabalho bem legal. Mas dependeu mais uma vez de minha própria vontade porque o projeto era bem desestruturado e dependia mais de vontade própria do que de qualquer outra coisa. E isso foi uma tristeza enorme porque quando saí, meu projeto não continuou. Mas, enfim, hoje sei que esse problema não é apenas deles, mas de várias outras ONGs que trabalham na África.Também tenho muitas dúvidas quanto à honestidade deles em questões financeiras. Mas, de novo, não é nenhum privilégio deles isso.Eu acho que como última opção eu iria. Mas tenta achar outras coisas. Se não encontrar, vai. O máximo que pode acontecer é você voltar pra casa. Eu quero muito voltar pra África."