sábado, 8 de novembro de 2008

Em construção...

Não dá para andar em Luanda sem esbarrar em alguma obra:



A grande dúvida, no entanto, é se a maioria da população vai poder usufruir ou como irá usufruir do desenvolvimento econômico do país.
As imagens abaixo são de condomínios recém-inaugurados em Luanda, no estilo Alphaville de ser. Não sei se é verdade, mas ouvi boatos que várias das casas são abastecidas por caminhões que carregam água mineral. Detalhe: essa água não seria apenas para beber e cozinhar. Seria água para tomar banho, regar as plantas... Será que é verdade mesmo?




Sabe que essa forma desordenada e excludente de Luanda crescer me lembra Brasília! Essas casas aí de cima poderiam estar no setor de Mansões Isoladas, por exemplo.


quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Vida de voluntária - mais um diário de bordo

Escrevi o email abaixo em junho de 2003, quando ainda estava na Europa, me preparando para ser voluntária em Moçambique. É mais um capítulo da vidinha de voluntária.

Oi, pessoal, tudo bem? Ja se foram tres meses,e e por isso que meu terceiro diario de bordo esta aqui, fresquinho para cada um de voces. Estou em Copenhague, na Dinamarca, onde vou morar por um mes. Estou dando aulas para refugiados do Iraque, da Somalia e do Ira. Esta sendo uma experiencia muito boa e, o melhor,ainda ganho pra isso. So que o dinheiro vai todo para a minha viagem para a Africa. Fazer o que, ne? Volto para a Inglaterra no fim de junho. Vim para ca para participar de um campeonato de teatro eresolvi ficar (Para quem nao lembra, sou tambem atriz agora). A peca foi Lysistrata, de Aristofanes. Conta a historia de algumas mulheres gregas que decidiram fazer greve de sexo para que seus maridos deixassem de participar da guerra. E uma comedi a muito engracada.Meu personagem era Ismenia, uma mulher que tentou fugir da Acropoles,local onde a ala feminina se reuniu durante a greve, fingindo que estava gravida. A peca estava muito boa. Ficamos em terceiro lugar.

A Dinamarca e muito bonita - e limpa, acima de tudo. Quando cheguei,fiquei em Juesmilde. E uma cidadezinha tao limpa que passou pela minha cabeca a necessidade de ter de tirar o sapato para pisar na rua. Mas agora ja estou mais acostumada. Aqui quase todo mundo fala ingles e tem uma bicicleta. Tentei dar uma volta por Copenhague em uma bike gratis que os turistas podem utilizar, mas nao deu: minhas pernas sao muito curtas para as bicicletas de gigantes que eles tem aqui. Culpa dos baixinhos la de casa. Nesse ultimo mes, muita coisa aconteceu. Fui para Londres, fiz o teatro, li alguns livros sobre Mocambique, trabalhei para o British Council. Londres, alias, e uma cidade maravilhosa. Cidade grande, cheia de historia, onde e possivel encontrar gente de todo o mundo. Como era de se esperar, o clima de guerra era inexistente. A cidade e tranquila, ainda mais se comparar com quem esta acostumado a Sao Paulo. Os guardas nao andam nem com arma de fogo. No fim de junho e comeco de agosto vou tirar ferias. Dai vou aproveitar para dar uma passeada pela Italia,Espanha, Portugal, Franca e Belgica. Ja sei que voces devem estar seperguntando como, onde, porque etc. Aqui na ONG todo mundo tem direito a ferias de sete dias. Mas, sou brasuca, e consegui dar uma prolongada. Vou num esquema bem barato se comparado com o padrao continental: aviao com desconto, onibus, trem. Durmo em albergues e entro nas atracoes na faixa com a apresentacao da carteira dejornalista. >Minha vida deve estar parecendo uma maravilha. Mas nao e nao. Ja tive alguns choques culturais como ter de pagar para ir ao banheiro dentro de um shopping center em Liverpool, nao ver mendingona rua na Dinamarca, e ter de acordar as 6h da manha para dar aula.Mas esses sacrificios compensam. Sempre tenho saudades das farras noBrasil, da carne, do clima. O tempo em Copenhague na semana passada estava excelente. Deu ate para lembrar do Nordeste. Um calorao de 18a 20oC e sol. Peguei uma praia. Estou super bronzeada.

Tenho de ir agora. Escrevam contando as novidades. Leio todos os e-mails. Quando voces vem me visitar?

Beijao, Mirella

sábado, 1 de novembro de 2008

Duty free shop na Unesco

Estou eu na minha sala na sede da Unesco em Paris quando escuto a menina que trabalhava comigo comentar que o duty free shop estava com algumas promoções. Eu, ingenuamente, fiquei pensando: será que ela está falando do duty free do aeroporto? Mas daí ela continua: "dei um pulo lá na hora do almoço". Ué, pensei eu, fingindo que não estava escutando a conversa alheia.

Alguns dias depois, há cerca de um ano, minha chefe comenta comigo que eu deveria comprar o vinho da Unesco para levar para a minha família. "Mirella, aqui é o único lugar do mundo onde você pode comprar esse vinho. Ele é ótimo e é bem barato." E um balãozinho saía da minha cabeça: "vinho da Unesco? Será que dão para os funcionários no Natal?". Eu conhecia a lojinha da Unesco, onde é possível comprar as publicações da organização, canetas, selos e lembrancinhas. Com certeza a lojinha não é administrada por nenhum brasileiro, já que não vi nada com os dizeres "estive na Unesco e lembrei de você".

Mas, voltando ao assunto, tive que perguntar a Anna Maria, a chefe: "Mas onde eu encontro esse vinho da Unesco?." A resposta me pegou de surpresa: "No duty free da Miollins". Miollins é o endereço de outro prédio da sede da Unesco, em Paris. Sim, isso mesmo, dentro da Unesco há um duty free shop onde os funcionários podem comprar coisas que se vendem em um duty free de aeroporto: cremes, bebidas, eletrônicos e outros trecos, além de garrafas de vinho com o rótulo da Unesco. Será que você, leitor, está pensando o mesmo que pensei naquele momento? Não acredita?

Eu tive que ir ao duty free para ver com meus próprios olhos. Eu não acreditava - ou não queria acreditar - que havia um duty free em um lugar como a Unesco e muito menos que havia garrafas de vinho produzidas especialmente para a organização. Mas é verdade. Fui ao duty free e estava bombando. Várias carinhas conhecidas dos corredores da Unesco passam por lá diariamente. São os mesmos que tomam decisões que afetam a vida de milhares de pessoas no mundo todo. Não que eu ache que uma pessoa que trabalha com desenvolvimento tenha que se privar de fazer compras, por exemplo. Mas as compras não precisam estar lá escancaradas no ambiente de trabalho, no horário de trabalho, e ainda sem a cobrança de impostos. Vi gente literalmente "limpando" a ala das bebidas. Época de Natal, só mesmo tomando muito vinho da Unesco para comemorar. O pior é que tenho que confessar que comprei uma garrafa de vinho. Tinha que mostrar para minha família que não estava inventando história. Paguei uns 15 euros, se não me engano, o que não é tão barato assim para um vinho na França, como minha chefe me havia dito. Mas deve ser porque ela é chefe na Unesco e, quem conhece os salários da ONU, sabe que 15 euros é dinheiro de pinga!


quinta-feira, 30 de outubro de 2008

O dia em que conversei com o presidente do Malauí

Seria um dia qualquer de abril de 2004, se eu não tivesse conseguido uma entrevista exclusiva com o então presidente do Malauí, Bakili Muluzi. Conhecido por não dar entrevista, dentre outros atributos como corrupto e autoritário, Muluzi estava em Blantyre, capital econômica do país, para o lançamento de sua estação de rádio. O evento aconteceu poucos dias antes das eleições gerais, a terceira da história do país. Claro que o candidato apoiado por Muluzi, Bingu wa Mutharika estava lá. Qualquer semelhança com a campanha no Brasil é pura realidade!

Enfim, antes do evento, aproveitei para entrevistar Mutharika, lá mesmo no palco, enquanto ele aguardava a chegada de Muluzi. Eu havia conseguido agendar a entrevista depois de muita insistência com o assessor dele. Até aquele momento, Mutharika não havia falado para nenhum jornalista que não fosse da mídia estatal. Mas nada que muita insistência, sotaque, o passaporte verde (é o de brasileira mesmo) e a falta de equidade de gênero não resolva. Também usei de chantagem. Afinal, havia entrevistado todos os candidatos à presidência do Malauí, menos Mutharika.

A entrevista acabou quando centenas de mulheres vestidas com cangas amarelas estampadas com o rosto de Muluzi e/ou Mutharika começaram a cantar e a dançar. Muluzi estava chegando. As mulheres haviam sido contratadas para alegrar o evento.

Eu fiquei do lado do palco e não tirei o olho de Muluzi nem um só segundo. Queria que ele me visse por lá. Já havia participado de outros eventos de inauguração, dentre eles da Fundação Muluzi, e tinha aplicado a mesma técnica. Sabia que ele iria se lembrar de mim. Afinal, eu era a única jornalista mulher azungu (branca, na língua local chichewa) que cobria as eleições.

Dito e feito. Ao final do evento, Muluzi desceu do palco rumo a seu carro, cercado por seguranças. As mulheres voltaram a dançar e a cantar. Eu fiz aquele tchauzinho básico e disse "- president". Ele parou e me perguntou: "who are you? where are you from? what are you doing here? (quem é você? ´De onde vocè é? O que te traz aqui?". As mulheres imediatamente pararam de dançar e de cantar. O silêncio era absoluto. Respondi às suas perguntas e, munida de um microfone, fiz uma curta, mas substanciosa entrevista. Chris, o câmera, gravou tudo. Trechos da entrevista foram utilizados para a produção do documentário "The Making of a President" (Presidente sob encomenda).

Terminada a entrevista, o fotógrafo da Associated Press vem em minha direção e pergunta: "O que ele falou? Como você conseguiu a entrevista?". Bom, sou da Minibus Media! (rs)

A foto abaixo é do momento da entrevista. Mutharika é o cara de óculos, em segundo plano. Ele também parou para o momento histórico. Note o meu figurino, que gracinha! Meu personal stylist faltou no dia.



terça-feira, 28 de outubro de 2008

Sem direito à identidade!

Só uma nota rápida: o governo angolano está sem cédulas para emissão de passaporte aos angolanos comuns. Ou seja: quem não tem "boas" conexões está com dificuldades de conseguir o passaporte. Engraçado que não houve falta de material na época do registo eleitoral, quando mais de oito milhões se registaram. Será que as cédulas do passaporte também são importadas? E como fica o direito de ir e de vir dos angolanos?

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Na Unesco

Há um ano eu estava chegando em Paris, França, para fazer um estágio na Seção de Mulher e Eqüidade de Gênero da Unesco. Lembro da dor de barriga que senti no aeroporto de Guarulhos, em São Paulo, antes do avião partir. A escolha não havia sido fácil. Não sabia se tinha tomado a decisão certa ou não.
Depois de passar um bom tempo fora do Brasil, havia voltado há três meses a viver em São Paulo. Trabalhava há 40 dias em uma ONG, com carteira assinada e tudo, como diria minha mãe. Mas quando surgiu a proposta da Unesco balancei. Havia me inscrito para a vaga em abril de 2007 e nem me lembrava mais, para falar a verdade. Foi quando recebi a notícia via email. Depois fui entrevistada e aceita para a vaga.
Para tornar uma longa história curta, em dois dias tive que tomar a decisão. Pedi demissão, comprei minha passagem, liguei para duas amigas que vivem em Paris e fui. Detalhe: a decisão foi difícil porque, dentre outras cositas, o estágio não era remunerado. Enfim, paguei para ver.
Eu queria muito conhecer uma organização da ONU por dentro, saber como as decisões são tomadas, como é a relação dos Estados membros, qual é o perfil do cara que fica lá no escritório. A oportunidade não poderia ter sido melhor: participei da 34a Conferência Geral da Unesco, evento no qual são tomadas as decisões para as ações e para o orçamento da organização nos próximos dois anos da organização. E não poderia ter sido melhor mesmo: as prioridades da Unesco para o biênio 2008-2009 são África e gênero.
Agora não tenho tempo de escrever sobre a experiência aqui. Mas o farei assim que possível. Só tenho uma coisa a dizer: foi uma das decisões mais acertadas da minha vida. Eu me decepcionei, sim - e muito. Mas valeu muito a pena.
Abaixo, algumas fotos:










segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Que dia feliz!

"What a happy day" (= que dia feliz). Foram essas as primeiras palavras que um senhor malauiano disse ao abrir uma caixa de papelão de uns 30cm de comprimento por uns 15cm de altura. Ele retirava uma a uma as barras de chocolate snickers e kit kat que acabara de receber via correio, enviadas na caixa por uma senhora inglesa, que mora em Londres. O senhor não se cansava de repetir: "what a happy day."

Eu estava no deck de um hotelzinho em Nhakata Bay, no norte do Malauí, à beira do lago Malauí. Já passava das 20h. Eu tinha acabado de comer. Naquele dia, em dezembro de 2003, tinha me dado um presente: comi carne depois de um tempão sem ao menos sentir o cheirinho de bife. Na época, a pesca estava proibida no lago. Eu estava passando as férias no Malauí, enquanto morava em Moçambique. Logo depois do jantar, encontrei o senhor do dia feliz. Lembro disso até hoje. A felicidade dele era tamanha, que aquele momento também foi inesquecível para mim. Não me lembro que idade ele tinha, mas posso dizer que era velho. Se não era, pelo menos aparentava ter mais de 70 anos. Sua única fonte de renda eram os chocolates que ele vendia para turistas, principalmente ingleses, que frequentavam o hotelzinho. O lucro era de 100%, já que ganhava os chocolates de uma inglesa.

Ele me contou que tinha de caminhar mais de três horas para chegar ao hotel. Mas valia a pena. Vendia cada barra de chocolate por cerca de três dólares. Em um país onde mais de 50% da população não recebe nem um dólar por dia, esse dinheiro representa uma pequena fortuna. Se para você é pouco, para o senhor é o suficiente para tornar o seu dia feliz.